Em novo romance, Bernardo Carvalho reflete sobre a passagem do tempo e a violência nas relações humanas

O terrorismo e a perversão guiam a narrativa do escritor premiado que tinha intenção inicial de fazer uma peça de teatro, mas o projeto ficou guardado

por Nahima Maciel 10/09/2016 10:33

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Renato Parada/Divulgacao
"Em nome dos valores ocidentais, estamos destruindo esses prórpiros valores. Talvez acabemos todos no mesmo lugar, que é o lugar da sociedade da força", diz Bernardo Carvalho (foto: Renato Parada/Divulgacao)

Durante uma estada em Berlim, em 2011, enquanto gozava de uma bolsa de residência, Bernardo Carvalho começou a tomar notas para um futuro livro. A intenção era fazer uma peça de teatro, mas o projeto ficou guardado nos caderninhos. Há alguns anos, Carvalho revisitou as anotações e relacionou os pensamentos de 2011 com a crise pela qual passava. Aos 55 anos, o escritor se deu conta de que já não vivia as paixões e o amor como na juventude. “Tive uma crise de meia idade ao perceber que tem que haver uma mudança em relação à administração do amor, da sexualidade, que você não vai se apaixonar como se apaixonou na adolescência”, conta. “A ideia que a crise de meia idade te dá é que você está seguindo para a morte em vez de renovar com a vida. Essas coisas me puseram num estado de urgência, de sensibilidade para o mundo.” Dessa urgência nasceu o 11º livro do carioca, duas vezes vencedor do Prêmio Jabuti com os romances Mongólia e Reprodução.

Simpatia pelo demônio é um livro sobre a violência nas relações humanas, incluindo aí os relacionamentos afetivos e sociais. Para falar disso, Carvalho criou Rato, sujeito de meia idade, observador de uma agência internacional que se apaixona por um homem perverso e manipulador intitulado Chihuahua. Acostumado a participar de operações em zonas de guerra e de luta contra o terrorismo, Rato parece ser o lado forte da relação, mas engana-se o leitor que se deixar fisgar por aparências. Pai de uma menina e egresso de um casamento encerrado, ele prefere a vulnerabilidade de uma nova paixão ao recolhimento e à precaução. Assim, se deixa encantar pelo Chihuahua e, mesmo ciente das consequências, mergulha no relacionamento.

Carvalho joga com as aparências e fragilidade das escolhas. Enquanto Rato aceita missão suicida em país islâmico em guerra, Chihuahua encena uma luta íntima de proporções letais mais contidas. “A violência está embutida no ser humano, senão a gente não vivia em guerra como a gente vive desde tempos imemoriais. Mas o que me interessa é que a violência está descaradamente ligada a coisas sexuais. A opressão das religiões, seja no Oriente Médio, seja no Brasil, tem a ver com a sexualidade. Para as igrejas evangélicas no Brasil e os pastores no Congresso, o problema é a sexualidade dos outros. É curioso que, num país de desigualdades sociais tão grandes, haja tamanha virulência quanto ao comportamento sexual dos outros”, explica o autor.

A esse cenário, Carvalho acrescenta o terrorismo, uma forma individualizada de violência que, segundo o autor, também passa pelo desejo. “O livro é como se também fosse uma fábula contemporânea”, avisa. Os personagens têm nomes de animais e remetem à estrutura das fábulas, espécies de contos morais que se apropriam de características animalescas para passar uma lição. Carvalho queria fazer uma paródia desse universo. Fez, ao mesmo tempo, um retrato da condição humana contemporânea.

Parte do romance veio de suas anotações, mas parte veio também da reflexão sobre acontecimentos recentes, como os atos de terrorismo na Europa e EUA. Como estes últimos influenciaram?

Esses indivíduos, em nome de Deus ou da religião ou o que seja, visavam vítimas que tinham alguma característica ligada à diferença ou liberdade sexual, sejam as mulheres, sejam as pessoas que vão se divertir no fim de semana, como em Paris. A coisa visada era um certo liberalismo dos costumes e comportamentos. Você pode dizer que, por uma razão social racial, é uma reação à opressão do colonialismo que finalmente vem à tona, uma reação ao racismo europeu em relação aos imigrantes. Mas isso não explica reações como o atentado em Orlando em uma boate gay, com gente pobre e imigrante. Tem a ver com o comportamento sexual dos próprios terroristas, tem uma coisa individual aí, uma violência ligada ao sexo, às repressões, aos afetos, ao amor, à paixão. Entrei nessa crise da meia idade que tem justamente a ver com o desejo, com essa obsessão da perda do desejo, da sexualidade, do amor, num mundo que está borbulhando nessas questões. E aí todos os fragmentos que eu vinha escrevendo começaram a fazer sentido e comecei a incorporá-los numa narrativa única, que é essa desse personagem numa crise da meia idade, numa vulnerabilidade total, querendo se abrir de volta à vida, disposto a se apaixonar por qualquer coisa e, inclusive, cair numa armadilha que vai significar a própria morte.

Como a contemporaneidade lhe pauta?

Por mais que tenha vontade de me indispor com o contemporâneo, para mim, o que interessa é estar o tempo inteiro me indispondo com o que está à minha volta, com o meu tempo, não me sentir adequado, isso é importante como paradigma literário. Ter um desconforto em relação ao presente é importante para mim. O elemento contemporâneo é fundamental, é o elemento onde escrevo. Ao mesmo tempo que tem o meu mundo, o mundo à minha volta, tem uma vontade de criar uma diferença em relação a esse mundo, criar um desconforto. E como sou um escritor de hoje, só posso escrever sobre meu tempo.

Podemos falar que o livro é sobre as relações de domínio?

Acho que sim. Toda relação amorosa tem um pouco a questão do poder. Em toda questão sexual e afetiva, querendo ou não, o poder está embutido. Nas relações sexuais, sobretudo nas fantasias sexuais, a coisa do poder está muito presente, da pessoa que se submete e da outra que domina, isso faz parte das perversões, das taras. No caso do livro, é uma relação perversa na qual esses papeis estão um pouco invertidos e se confundem. O Chihuahua parece o mais frágil, mas ele rege a perversão. E o Rato se submete a isso, mas sabe que está se submetendo. E há uma ambiguidade porque vida e morte são misturadas também.

Você mesmo diz que a suposição de que haja aspectos do espírito humano que devem ser mantidos na sombra e em silêncio é incrível. Simpatia pelo demônio é, um pouco, sobre esses aspectos também?

Creio que sim. Não tenho religião, mas tenho uma relação com a literatura que é de fé, quase religiosa: aquele é um espaço sagrado de liberdade. Na literatura, você tem a possibilidade de ter uma liberdade absoluta, você não está matando ninguém, esfaqueando ninguém, oprimindo ninguém, mas tem ali uma possibilidade de liberdade de reflexão e representação muito importante porque é um lugar no qual você pode refletir sobre coisas que estão no mundo

Você sempre diz que não pensa no leitor quando escreve. Por que isso é importante?

Tem uma tendência no mundo hoje de uma leitura de pouco esforço por causa dessa coisa de precisar agradar o leitor, de não poder contradizer o leitor porque ele precisa continuar ligado. Ninguém pode dizer que não pensa no leitor na hora que escreve porque é um escândalo, é como se cada artista, cientista ou escritor virasse uma empresa que tem o leitor como finalidade e que segue o lema empresarial de que o leitor tem sempre razão. Isso estreita muito as possibilidades literárias. Acho que a gente está vivendo um momento como esse.

No livro, o narrador diz que “na barbárie, não há dúvida nem hesitação, segue-se o caminho mais curto”. Você acha que a civilização vive hoje uma barbárie?

Tem um negócio que acho lindo nas civilizações ocidentais e, que ao mesmo tempo, é a força e a fragilidade delas: por mais opressivas e violentas que sejam, elas permitem a autocrítica, a autorreflexão e incorporam as contradições às claras. O que é interessante dessa fragilidade do Ocidente é que isso fica à mostra: você tem imprensa livre, as contradições afloram. E na barbárie, o regime é da força, não tem contradição, é na porrada. A coisa do Estado Islâmico com Deus ou de qualquer regime que faz a guerra em nome de Deus não tem contradição porque é dogma: Deus mandou, Deus é absoluto e ajo em nome de Deus.

Isso cria uma permissão para fazer tudo...

Então você pode matar, pode fazer o que quiser. Os terroristas entenderam exatamente qual o ponto fraco do Ocidente, porque se o Ocidente reagir e começar a adotar as medidas de força, ele se contradiz ao ponto de se autodestruir. E a barbárie, para mim, é exatamente esse regime da força absoluta que se aproveita das contradições dessa civilização, que é cheia de erros, violência e tal, mas que tem essa beleza de estar exposta à autoanálise, à autocrítica, à oposição. Não sei se estamos vivendo a barbárie, mas acho que estamos caminhando para lá, sem perceber. Em nome dos valores ocidentais, estamos destruindo esses próprios valores. Talvez acabemos todos no mesmo lugar, que é o lugar da sociedade da força.

SIMPATIA PELO DEMÔNIO

De Bernardo Carvalho
Companhia das Letras
232 páginas
R$ 44,90

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