Projeto Leve um Livro distribui gratuitamente obras de poetas em BH

Iniciativa tem objetivo de difundir a poesia entre a população, com 180 mil exemplares à disposição

por Carolina Braga 30/08/2016 08:00

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LEVE UM LIVRO/DIVULGAÇÃO
Os poetas Bruno Brum e Ana Elisa Ribeiro, autores do projeto de publicação e distribuição de antologias poéticas (foto: LEVE UM LIVRO/DIVULGAÇÃO)
Poesia não precisa ser bonitinha. A produção contemporânea, por exemplo, é principalmente transgressora, experimental e pode até ser incômoda e agressiva. Espalhar essa diversidade que marca a escrita do nosso tempo é uma das vocações do projeto Leve um Livro. “Não é uma coleção para fazer bom-mocismo”, afirma a idealizadora da iniciativa, a escritora e professora Ana Elisa Ribeiro.


Quem costuma circular por cafés, bibliotecas e centros culturais de Belo Horizonte já deve ter se deparado com os curiosos livrinhos do projeto. De formato pequeno (medem 10 x 15cm), com cores fortes e aproximadamente 14 páginas cada um, eles circulam pela cidade desde o final de 2014. É só pegar e levar. É de graça. O negócio é espalhar poesia e quebrar o tabu que o gênero enfrenta.

“Mesmo marginalizados, os poetas sempre foram à luta contra todos os preconceitos e obstáculos impostos por um sistema capitalista que não se interessa por uma manifestação artística, que, graças a Deus, não serve para nada e é apenas um “inutensílio” para a alma, como disse o poeta Manoel de Barros”, comenta o poeta Jovino Machado. Machado participou do Leve um Livro com o título Meu jeito bêbado de ser.

“A gente tem uma visão errada de que a poesia é com palavras bonitas, com ritmo. Essa é uma ideia muito tradicional, uma representação da poesia completamente doida. Em larga medida, é um gênero transgressor: é a liberdade de linguagem”, diz Ana Elisa.

Motivada a atualizar esse “papo estranho”, em 2011 ela se juntou a Bruno Brum e apresentou um projeto que previa a distribuição gratuita de livros com poemas de autores no auge de sua produção. A cada mês, são escolhidos dois autores. A tiragem é de 2,5 mil exemplares. Como pulverizar poesia é o principal objetivo, todos os livros estão disponíveis para download gratuito.

Entusiasmado defensor da iniciativa, Jovino Machado lembra que Minas Gerais sempre esteve presente com destaque na história da poesia brasileira com as obras poéticas de Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes e Emílio Moura, entre outros. “A poesia mineira ganhou uma força imensa nos últimos anos, com o surgimento de saraus como Sarau Vira-lata, Sarau Comum, Sarau das Cachorras, Coletivoz, além de projetos vitoriosos como o Projeto Digas e Palco Biblioteca, promovidos pelo Sesc Palladium”, cita.

Três temporadas do Leve um Livro foram aprovadas de uma vez para ser realizadas com recursos do Fundo Municipal de Cultura. Da primeira, fizeram parte Chacal, Ana Martins Marques, Marcelo Dolabela e Mônica de Aquino. Da segunda, ainda vigente, estão na lista Amanda Bruno, Chico de Paula e Líria Porto. Vêm aí publicações de Ricardo Aleixo, Léo Cunha, Marcelino Freire e Alice Santana. São 24 poetas por leva. Sempre um de Belo Horizonte e outro de fora.

Generosidade

“É, sobretudo, um projeto muito generoso, que alia de forma inteligente impresso e digital, e, mais importante, sempre de forma gratuita e acessível”, avalia a poetisa Ana Martins Marques. Ela participou da primeira temporada e, desde então, acompanha as antologias. “Descobri vários poetas que não conhecia, baixei todos e faço questão de colecionar também os livrinhos impressos.”

Mas quem faz poesia sabe: não é mesmo um gênero popular. Muitas vezes, o boca a boca fez chegar até Ana Elisa Ribeiro casos de comportamentos surpreendentes de leitores diante dos poemas. “A pessoa pega para conhecer. De repente, abre o livrinho e topa com uma coisa que tem algo de incômodo. Isso pode ser positivo ou negativo”, afirma.

“O meio da poesia é muito fechado. Se você começa a frequentar o circuito literário da cidade, rapidamente vai perceber que são sempre as mesmas pessoas que estão ali. O público mais amplo tem uma grande resistência em relação à poesia, parece que é uma coisa para um clube de iniciados. O que tentamos fazer é justamente quebrar um pouco isso”, diz o poeta Bruno Brum, também idealizador do projeto.

Segundo ele, a experiência com o Leve um Livro revela que as pessoas não leem poesia pelo simples fato de não conhecer e muitas vezes não saber nem por onde começar. “Existe uma experiência, geralmente traumática, da escola, e depois a pessoa nunca mais quer saber daquilo”, constata Brum. Para ele, o projeto é um trabalho de formiguinha. “A gente sabe que não vai mudar a realidade do país, mas fazemos o que está ao nosso alcance.”

 

Diversidade é critério de escolha
O critério da curadoria do Leve um Livro é a diversidade de estilos, regiões, representação de homens, mulheres, jovens e veteranos. A escolha afeta a força da rede de escritores. É notório o quanto é difícil publicar um livro no Brasil.

Poeta em foco no mês de agosto, o sergipano Allan Jonnes é o retrato disso. Ele tem 26 anos e é da cidade de Lagarto (SE). Circula o Brasil participando de slams, considerado um novo jeito de fazer poesia. São tipos de saraus que se organizam como batalhas de MCs. Se não fosse uma coleção como Leve um Livro, dificilmente a literatura dele estaria no radar dos mineiros que não fossem da área.

“O projeto apresenta aos leitores desde os versos líricos e ácidos do amazonense Diego Moraes até os inventivos textos em portunhol selvagem do Douglas Diegues, passando pelo bom humor irônico de Ana Elisa Ribeiro e a poesia absolutamente original da premiada Ana Martins Marques. A poesia marginal dos anos 1970 está representada por Marcelo Dolabela e Nicolas Behr, que continuam produzindo uma obra estimulante e inventiva. Fabrício Corsaletti e o sergipano Allan Jonnes apresentam em seus livros o frescor de uma poesia jovem que dá continuidade à tradição e ao mesmo tempo reinventa a literatura do presente e do futuro”, analisa Jovino Machado.

Confira poema da antologia de agosto

O problema da cabeça, de Allan Jones

O problema da cabeça do homem
É a ausência de um furo na traseira,
para a evacuação.
Por isso as doenças.
Há um desequilíbrio claro por exemplo
se ocorrem dez tomates em um pé:
[apenas um estará mau
é uma hipótese admissível
no entanto dois em cada três
[acontecimentos na vida estarão estragados
é uma a regra
daí o desequilíbrio
o órgão de suportar o tomate tem a saída
o órgão de suportar a trajetória não tem
[a saída
por isso a cabeça é a campeã
nas doenças
Uma questão de arquitetura.
 

 

O PROJETO  

72 poetas
180 mil livros
20 pontos de distribuição
3 temporadas

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