Escultores mineiros se apresentam na 32ª Bienal de São Paulo

Curadoria-geral desta edição é do alemão Jochen Volz e o tema da mostra é 'Incerteza viva'

por Walter Sebastião 28/08/2016 11:00

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Pedro Ivo Trasferetti/Fundação Bienal de SP
(foto: Pedro Ivo Trasferetti/Fundação Bienal de SP)
A escultura, linguagem com história em Minas Gerais desde o século 18, é a linguagem que dois artistas mineiros apresentam na 32ª Bienal de São Paulo, que vai ser aberta no dia 7 de setembro e fica em cartaz, no Parque Ibirapuera, até 11 de dezembro. São eles Lais Myrrha, de 41 anos, e José Bento, de 53. A curadoria-geral é do alemão Jochen Volz e o tema da mostra é “Incerteza viva”. A ênfase recai sobre artistas nascidos após 1970 e as mulheres são mais da metade dos autores convidados. A promessa é de uma investigação sobre o viver com a incerteza, pontuando diversidades, o olhar para o desconhecido e a interrogação do que é conhecido, colocando diferentes saberes em complementariedade.

“Lais Myrrha e José Bento são dois artistas com grande inteligência escultórica, embora bastante diferentes entre si. Lais claramente está ancorada na arte conceitual e poética e suas obras muitas vezes parecem parábolas, traduzindo uma questão em forma e massa. José Bento é escultor mesmo, um mestre da transformação de matéria prima em objetos e ambientes que podem ser usados (numa forma ou outra) pelo público”, analisa Jochen Volz, curador-geral da Bienal. Alemão, Volz transita entre a Europa e o Brasil, com grande intimidade com a arte brasileira. Foi um dos curadores responsáveis pela implantação do Instituto Inhotim, quando morou durante alguns anos em Belo Horizonte. Para a Bienal, Volz convidou quatro co-curadores: Gabi Ngcobo (África do Sul), Júlia Rebouças (Brasil), Lars Bang Larsen (Dinamarca) e Sofía Olascoaga (México). O grupo reuniu trabalhos de 81 artistas e coletivos de 33 países.

Lais Myrrha, de 41 anos, vai mostrar Dois pesos e duas medidas, obra inédita criada especialmente para a Bienal. São duas torres com cerca de oito metros, criadas a partir de empilhamentos de materiais. O trabalho ocupa lugar nobre: o vão central do prédio projetado por Lina Bo Bardi. Uma foi criada com cimento, tijolos, telhas e vergalhões e é alusiva à construção civil; a outra, com madeiras, vegetais, argila e matérias orgânicas, evoca hábitos construtivos indígenas. A artista conta que o trabalho, que estimula a observação comparativa dos volumes, coloca para o espectador um jogo com escalas, pesos, medidas, temporalidades, relações sociais, cadeias produtivas, normas jurídicas e arqueologias.

Dois pesos e duas medidas, explica Lais Myrrha, dialoga com a arquitetura do local da exposição. Segundo a artista, essa realização evidencia um elemento presente em tudo que ela fez: a busca para que o trabalho seja uma operação de síntese. “Gosto que a peça condense o máximo possível de informações, ideias e matérias”, observa. “Trabalho com processos inconclusos, incompletos, transitórios. São formas que carregam incertezas e possibilidades de mudança”, acrescenta. “Ao colocar a instabilidade como tema, a Bienal traz uma questão premente do nosso tempo”, afirma, lembrando que muitos temas políticos, ecológicos e sociais explicitam agudamente o tema.

“Faço também uma história do esquecimento”, observa Lais Myrrha, pontuando o declarado interesse por história a contrapelo, conceito do alemão Walter Benjamin (1892-1940). Ela cita como exemplo outro trabalho seu, intitulado Projeto Gameleira 1971, sobre o desabamento de um pavilhão de exposições que deixou 65 operários mortos e 50 feridos em Belo Horizonte. “O Brasil renega a memória desse tipo de coisa. Tais situações não poderiam ter sido esquecidas. Mereciam um memorial”, defende. O apagamento do ocorrido, para a artista, faz com outras tragédias semelhantes se repitam. “E cai viaduto, ciclovia, prédios”, enumera, lembrando que não foi o acaso o motivo das tragédias. “As narrativas não são neutras”, afirma, crítica ao apagamento da tragédia.

Mineira de Belo Horizonte, Lais Myrrha vive em São Paulo, mas cursa doutorado na capital mineira, na Escola de Belas-Artes da UFMG. Conta que só teve certeza de que queria trabalhar com arte ao fazer o curso e perceber que, na área de arte, poderia dar vazão a seu interesse por vários saberes, informações e inquietações, o que seria difícil em outra disciplina. “Não consigo me ver fazendo outra coisa”, garante. Lais não coloca a atividade artística apenas como um fazer, mas como prática que se insere em sistema, “nem sempre tão nobre”, que envolve desde a circulação de informação até aspectos mercadológicos, passando por múltiplas relações com o social.

Potência A artista vai logo avisando: não tem e nem gosta de uma definição de arte. “Qualquer uma delas sempre deixa de fora algo. O que sinto é que a produção simbólica deve ter algo muito potente, senão ela não permaneceria por tanto tempo e o ser humano não se comprometeria tanto com ela”, argumenta. Não esconde sedução pela sofisticação no pensar artístico e o poder de abstração da prática. “O ideal seria que fosse uma atividade que permitisse o pensamento, sentimentos e sensações, mas, na maior parte do tempo, como outras atividades, a arte está submetida a um sistema opressivo”, observa, sem esconder a vontade de que as criações sejam críticas ao contexto em que se inserem e até extrapolem o circuito de arte.

Com relação à Bienal de São Paulo, Lais Myrrha conta que a expectativa era realizar o trabalho da melhor forma possível. Mesmo sabendo que uma realização puxa outras, diz que finalizar um projeto grande e alcançar o resultado desejado já lhe trouxe satisfação. “Por mais que a gente faça maquete, a peça pronta te surpreende”, observa. “Ser artista não é carreira como a do executivo, não tem nível um, dois ou três. Cada um tem o seu caminho particular. Entender o seu caminho faz a diferença, mas isso demora. Aos poucos, vai se descobrindo que há situações que não são para o que você faz e não há porque ficar gastando energia à toa. Quando você começa, a intenção é fazer muitas coisas, mas chega um momento em que o melhor é ser seletivo”, conclui.

Wilma Martins

Está na exposição mais uma mineira ilustre: Wilma Martins, de 82 anos. Ela mora no Rio Janeiro, foi aluna de Alberto da Veiga Guignard (1896-1962) e é autora de desenhos e pinturas admiráveis, que fustigam o cotidiano com cenas em que bichos invadem ambientes domésticos. Trata-se de uma produção aparentemente alheia ao burburinho metropolitano, que, com visão irônica, carrega também alguma perplexidade diante do mundo. O fato de a artista ter longa dedicação ao desenho pontua outra linguagem cara à arte feita em Minas.

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