Exposição no BDMG Cultural reúne 100 trabalhos da artista Toshiko Ishii

Ceramista japonesa que viveu em Brumadinho criou obra de grande expressão utilizando técnica com queima em forno de lenha

por Walter Sebastião 24/08/2016 08:20

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Maria Tereza Correia/EM /D.A Press %u2013 7/5/05
(foto: Maria Tereza Correia/EM /D.A Press %u2013 7/5/05 )
Uma artista singular ganha sua maior exposição: Toshiko Ishii (1911-2007). Japonesa nascida em Kyoto, aos 20 anos muda-se para o Brasil – país sobre o qual sabia apenas que tinha índios e bananas – e se instala na Fazenda Palhano, em Brumadinho (MG), após passar por Curitiba e São Paulo, devido a problemas respiratórios do marido. Aos 70 anos, depois de encontrar argila de qualidade no local onde mora, passa a fazer cerâmica na técnica bizen, com queima em forno de lenha por vários dias. Duas décadas de prática, estudo e pesquisa a levaram ao desenvolvimento e burilamento de uma linguagem inspirada em tradições japonesas, mas que incorpora vivências de Minas Gerais. A delicadeza dos motivos decorativos e a expressividade no uso das matérias fazem da obra de Toshiko uma pequena joia das artes de Minas Gerais.

Cerca de 100 peças da artista, criadas entre 1985 e 2012, estão em mostra no BDMG Cultural e podem ser vistas até 23 de setembro. A curadoria da exposição é de Erli Fantini e Adel Souki, ceramistas e amigas da japonesa. “Toshiko Ishii sempre me deixa impressionada. Organizando a exposição, vemos como foi mulher de fibra, sensível, apesar da aparência frágil”, conta Erli, sem esconder a saudade da amiga. “Além de ceramista, foi uma desenhista expressiva, delicada”, acrescenta, destacando o capricho na elaboração das peças e o cuidado com o acabamento. Erli aponta como exemplo os desenhos no fundo das xícaras de chá, para que quem estivesse em frente a quem usa a peça também fruísse a beleza do objeto. “Como as bordadeiras, para Toshiko não basta a frente do bordado ser bonita, mas o avesso também tem de ser bonito”, compara a curadora.

Outro exemplo dos cuidados da ceramista são os “entalhes delicados” nos pés de várias peças. Erli conta que o esmero de Toshiko chegava à minúcia de ordenar as palhas que envolvem a peça a ser levada ao forno, resultando, após a queima, em uma visualidade de delicada potência plástica. A amiga explica que a artista tinha cuidado meditado na exploração e escolha das matérias, “cujo colorido original traz a alma da argila, já que só pode ser conseguido devido aos minerais presentes na argila e ao forno com o qual ela trabalha”, conta. “Toshiko Ishii foi uma sábia. A cerâmica dela tem a mão e a vida dela”, afirma, lembrando que um prato feito ao final da vida traz o ideograma existir.

Cotidiano

Para Erli Fantini, a cerâmica de Toshiko Ishii reflete a vivência de mulher de família de classe média, que ofereceu aos filhos boa educação e se ocupou com artes, costura, culinária etc. A descoberta de argila no pasto da fazenda fez com que ela começasse a trabalhar com cerâmica, hábito integrado à sua vivência doméstica. “Para Toshiko, fazer arroz era tão importante quanto fazer cerâmica. As peças que fazia eram para ser usadas”, conta. A curadora observa que a vivência da roça, sempre às voltas com um cotidiano regrado, e a proximidade com a natureza dão sabor de forte autenticidade às peças, ecoando nas decorações com desenhos de bichos, flores e frutas.

“Foi difícil para Toshiko entender nossas abstrações e desejos de dar à cerâmica outro enfoque que não o utilitário”, recorda Erli com bom humor, lembrando o carinho da amiga japonesa com a produção desse tipo de objeto. A amizade de Toshiko com Erli e Adel Souki é da primeira metade dos anos 1980, motivada pelo interesse comum e pelo fato de Toshiko ter um forno a lenha. A partir de então, o trio aprofundou suas pesquisas – inclusive em revistas e publicações japonesas – sobre a antiga técnica do bizen. Desse trabalho resultou uma exposição conjunta das três artistas, em 1984. “O que Toshiko fez foi somar técnicas japonesas com argila que encontrou no Brasil”, observa, lembrando que a amiga chamava sua prática de “bizen mineiro”.

A influencia do contexto de Minas Gerais (“não há como Toshiko trabalhar sem considerar a especificidade do material encontrado aqui”) na formação da ceramista talvez possa ser detectada em potes e vasos de flores que são “bem mineiros”, observa Erli. “Na volta de uma viagem ao Japão, ela contou ter descoberto lá que era mais mineira do que japonesa”, recorda. O estímulo de Megume Yuasa, então um nome respeitado da cerâmica no Brasil, para que ela continuasse se soma a outros. O pintor Luiz Paulo Bavelli, genro de Toshiko, a incentivou, dando a ela papéis e lápis para que desenhasse. Acrescente-se que Toshiko nasceu em Kyoto, mesma terra da pintora Tomie Othake, não só amiga de infância como companheira no navio que trouxe as duas para o Brasil.

O ambiente em que viveu a ceramista, recorda Erli Fantini, seja na infância no Japão ou em Minas Gerais, valorizava a arte e a cultura. O marido, Nobukane Ishii, foi um excelente fotógrafo. Toshiko tinha gosto pela música, por ópera e pela leitura, chegando a fazer alguns haikais. Erli conta que, em relação à difusão do trabalho da artista, o principal está feito, pois foram publicados, em Minas Gerais, dois livros sobre a artista. A produção da ceramista, até por ser artesanal, é pequena. As peças reunidas na exposição pertencem a amigos e admiradores da ceramista. “Toshiko foi uma pessoa movida pelo forte desejo de ser ceramista aos 70 anos. Mulher de garra, de perseverança invejável. Peguei carona na força dela, nessa atitude de perseverar”, brinca.

Toshiko Ishii
Exposição de cerâmicas. No BDMG Cultural (Rua Bernardo Guimarães, 1.600, Lourdes, (31) 3219-8486). Diariamente, das 10h às 18h, quinta-feira, das 10h às 21h. Até 23 de setembro. Entrada franca.

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