Livro reúne composições de Adriana Calcanhotto organizadas por Eucanaã Ferraz

'Pra Que Serve Uma Canção Como Essa?' traz 91 letras da artista gaúcha reunidas nas seções Você, Agora, Onde, Olhar e Verso

por Agência Estado 23/08/2016 17:09

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Leo Aversa/Divulgação
(foto: Leo Aversa/Divulgação)
Esqueça aquela canção que toca no rádio. O que o poeta Eucanaã Ferraz espera dos leitores do livro lançado pela Fnac Pinheiros, é que ele silencie a música e deixe a palavra escrita soar mais bruta. Pra Que Serve Uma Canção Como Essa? traz 91 letras de Adriana Calcanhotto, organizadas por ele em cinco seções - Você, Agora, Onde, Olhar, Verso - justamente para fugir de uma ordem cronológica, por álbum, que levaria o leitor a cantarolar o que poderia ser lido como um poema. É um pedido e tanto para fãs da cantora que estreou no início dos anos 1990 e acumula dezenas de sucessos - e para ela também.

"Eu não consigo dissociar. É difícil para mim. O Eucanaã tem essa capacidade de olhar com e sem melodia. Eu não consigo mesmo, mas se ele diz que elas existem no papel, tenho total confiança porque ele é um poeta incrível", diz Adriana Calcanhotto. Ela gostou do resultado: "O que é bacana no livro é que ele traz o olhar de alguém. Não se trata de uma obra técnica; ela é autoral. É a maneira como ele olha para o texto e para o trabalho como um todo", diz a compositora.

Adriana conta que nunca sentou para escrever uma letra e que elas são sempre relacionadas a alguma melodia dela ou de seus parceiros. Ou seja, primeiro vem a melodia; depois, a escrita. E aí voltamos a uma questão estrutural da obra.

"Esse tipo de livro parte de um equívoco, que é separar o que é inseparável. A canção é o objeto inteiro", diz Ferraz. Mas, ao mesmo tempo, ele completa, a canção da Adriana tem uma qualidade, como texto, que quase passa imperceptível porque se dilui na canção. "Não vemos mais a letra, só cantamos." Então, quando a música recua e a letra é reproduzida, vê-se a palavra "soar na matéria silenciosa do papel". E, assim, na opinião do organizador, o texto ganha mais qualidade.

Entre as letras selecionadas, estão Mentira, Vambora, Seu Pensamento, Esquadros, Senhas e tantas outras - algumas delas são inéditas (antigas e recentes) e foram enviadas pela compositora ao poeta. Ela, aliás, está em fase de composição e conta que não pensa ainda em novo álbum

Quanto à organização dos textos em blocos, Ferraz explica que dessa forma foi possível fazer uma aproximação com as questões de mundo de Adriana, com o que mobiliza sua criação e seu coração. O livro começou a ser pensando há cinco anos.

Adriana Calcanhotto não escreve prosa e seus versos são sempre acompanhados de música, mas a relação da compositora com a literatura é antiga e perpassa toda a sua obra - como outros tipos de arte também a influenciaram e servem de matéria-prima.

Ferraz resgata uma história antiga na apresentação do volume. Ainda adolescente, na casa dos pais, ela ouviu no rádio uma canção cantada por Fagner. "Eu senti uma coisa muito especial ouvindo aquilo, uma coisa que eu não sabia dizer o que era. E fui descobrir mais tarde que era um poema de Ferreira Gullar musicado", disse a compositora em entrevista. O poema em questão era Traduzir-se.

"Adriana é, antes de qualquer coisa, uma leitora. Seu mundo é o da música, mas ela é uma compositora literariamente culta, sempre muito atenta, que organiza antologias de poesia, faz recitais, é muito próxima de poetas. Isso tudo ajudou a forjar essa qualidade na personalidade artística dela como um todo e no trabalho dela como cancionista", finaliza Eucanaã Ferraz.

PRA QUE SERVE UMA CANÇÃO COMO ESSA?
Org.: Eucanaã Ferraz
Editora: Bazar do Tempo
(192 págs.; R$ 48)

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