Inhotim desiste de realizar a performance 'Vanguarda viperina', criada por Tunga

Após ameaça de punição pelo Ibama e recusa do Instituto Vital Brazil em participar, Inhotim decidiu por não realizar a performance que envolveria o emprego de cobras sedadas

por Mariana Peixoto Walter Sebastião 18/08/2016 20:03

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INSTITUTO AGNUT/DIVULGAÇÃO
Emprego de cobras sedadas impediu a realização da performance (foto: INSTITUTO AGNUT/DIVULGAÇÃO)

 

Realizada em quatro ocasiões – a primeira em 1985, no Rio de Janeiro, e a última 10 anos mais tarde, em Nova York – a performance Vanguarda viperina, de Tunga, não será mais reeditada em Inhotim. A peformance, que seria uma das principais atrações da programação comemorativa dos 10 anos de abertura do centro de arte contemporânea ao público, prevista para setembro, envolveria três serpentes.


Anteontem, porém, o Instituto Vital Brazil, parceiro do estúdio de Tunga, Agnut, e de Inhotim na realização da performance, informou que ''está impossibilitado'' de participar de sua realização. A decisão foi tomada após reunião do conselho de ética do laboratório carioca, responsável também pela primeira edição de Vanguarda viperina, 31 anos atrás.

Diante da ''impossibilidade'', Inhotim recuou. ''Estávamos aguardando uma posição deles. Como não houve unanimidade (entre os membros do conselho de ética do laboratório) sobre a participação, decidimos mudar. Agora estamos conversando com o estúdio de Tunga para ver qual performance vai entrar no lugar. Queremos que seja algo tão representativo quanto Vanguarda viperina'', afirma Antônio Grassi, diretor-executivo do centro de arte contemporânea.

 

Conforme adiantou o Estado de Minas em sua edição de 13 de agosto, para a realização da performance o Vital Brazil cederia as serpentes utilizadas. Os répteis seriam sedados com CO2. Depois, seriam trançados. A performance acompanharia o destrançar das serpentes, à medida que despertassem da sedação (o que duraria de 1,5 a 2 minutos). Além de ceder os animais, o laboratório ainda acompanharia a performance com a presença de um biólogo, um veterinário e um técnico.


Também procurado pela reportagem, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) afirmou, já na semana passada, que a legislação ambiental não permite a reedição da performance. Caso ela ocorresse, os envolvidos estariam sujeitos às penalidades dispostas na legislação vigente.

A Lei 9.605, conhecida como Lei de Crimes Ambientais, é de 1998. Ela prevê detenção e multa para aquele que ''praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos''. Inhotim afirma não ter recebido nenhum ofício do Ibama sobre as consequências de uma possível realização da performance.

O artista pernambucano, morto em 6 de junho, aos 64 anos, o único a ter duas galerias no centro de arte contemporânea, ocupa boa parte da programação comemorativa dos 10 anos de Inhotim. Abrindo a homenagem, no dia 3, já com ingressos esgotados, haverá uma visitação noturna a True rouge. Primeira obra do centro de arte contemporânea, foi criada por Tunga na década de 1990. Frascos de vidro dispostos entre cordas e tecidos são cobertos por um líquido vermelho que se espalha pelo chão. ''A água dos frascos evapora, e fica apenas o resíduo vermelho, como uma mácula. Esse evaporar era uma metáfora do tempo'', afirmou Tunga.

No dia 8, haverá leitura das narrativas de Tunga, histórias que nortearam suas obras, aqui contadas por monitores de Inhotim. E, à noite, a coreógrafa Lia Rodrigues, que atuou em algumas obras do artista, coordena a performance True rouge, em que homens e mulheres nus vão espalhar gelatina vermelha pelos corpos e pela própria obra. Essa performance já ocorreu no próprio Inhotim, quando da inauguração da galeria, em 2004. No dia 9, haverá, na Galeria Psicoativa, Make-up coincidence, performance em que um casal nu vai maquiar as esculturas de A prole do bebê (2002).

 

 

OPINIÃO: Um convite à reflexão  

 

A não realização de Vanguarda viperina só joga luz sobre a controvérsia que desperta o uso de animais no contexto das artes visuais. E existem várias obras que se valem de bichos para criar alegorias com as mais diversas intenções. Seja a denúncia de situações sociais cruéis que são ''toleradas'' e invisibilizadas, até outras, questionáveis, que deixam a sensação de ser apenas busca de publicidade. Até hoje choca a queima de galinhas vivas pelo artista Cildo Meireles, nos anos 1970. Mas toda a ''indignação'' com a imagem escondeu o motivo do ato: o silêncio sobre a tortura política.

Famosa é a performance I like America and America likes me (1974), do alemão Joseph Beuys (1921-1986), com diversos vídeos disponíveis na internet. Pontuando relações entre natureza e cultura, o artista conviveu, oito horas por dia, durante três dias, numa galeria de arte, com um coiote selvagem, coberto por cobertor de feltro. Ao final dos três dias, o animal tornou-se tolerante à presença do artista e até permitiu um abraço dele.

O artista mineiro Lúcio Miranda, nos anos 1980, criou instalação, na galeria Gesto Gráfico, com ratos correndo sobre bandeira de Minas Gerais feita de goiabada e queijo.

O uso de animais mortos não diminui a controvérsia. Physical impossibility of death in the mind of someone living (Impossibilidade física da morte na mente de alguém vivo), um enorme tubarão-tigre numa vitrine cheia de formol, do inglês Damien Hirst, teve problemas com a saúde pública de Nova York (e foi vendido mais tarde por US$ 10 milhões). Rendeu polêmica e até cartas anônimas pedindo intervenção da saúde pública o uso de pedaços de carne de boi pela mineira Solange Pessoa numa instalação na Grande Galeria do Palácio das Artes. Solange é uma autora interessada na relação entre arte e natureza.

O justíssimo combate à violência contra animais e a diversidade de proposições dos artistas convidam mais à análise caso a caso do que a posições generalizantes. Difícil acreditar que o Instituto Inhotim permitiria maus-tratos a animais, já que se trata de um espaço declaradamente com preocupações ambientais. A boa notícia, para além do mérito da questão em si, é que, de certa forma, só a discussão colocada por Vanguarda viperina tem alcance, no sentido de provocar reflexão, que Tunga certamente adoraria. Há ironia desde o título, vale lembrar. A palavra viperina abarca desde venenoso, peçonhento até o maledicente falar mal de tudo e de todos.

 

(Walter Sebastião) 

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