Exposição de 15 obras de Fernando Botero no Museu Inimá de Paula revela marcas do artista colombiano

Rigor pictórico, uso de cores fortes e o olhar irônico para o mundo

por Walter Sebastião 14/08/2016 07:00

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Fotos: Beto Novaes/EM/D.A Press
(foto: Fotos: Beto Novaes/EM/D.A Press )
O colombiano Fernando Botero recebe, pela segunda vez, exposição em Belo Horizonte. Depois de Dores da Colômbia, denúncia da violência em sua terra natal, apresentada no Museu de Artes e Ofícios, em 2014, ele agora ganha pequena exposição com 15 obras no Museu Inimá de Paula. Botero é um dos artistas mais famosos do mundo e sucesso no mercado de arte internacional por suas pinturas de personagens sempre gordinhos. O colombiano infla tudo: tem desde uma Mona Lisa bobhechuda até cerâmica pré-colombiana rechonchuda. E suas obras encantam o público, que tem movimentado a exposição em Belo Horizonte. Por isso, o museu ampliou o horário de visitação aos domingos, com abertura a partir das 10h.

 

A mostra, com obras da Galeria Almeida e Dale, apresenta a produção “suave” de Botero, mas que evidencia as marcas da arte do colombiano de 84 anos nascido em Medellín. A primeira delas é a qualidade da pintura, produto de um artista cuja perícia modula não só cores e formas, mas constrói diferentes tons narrativos. Com desenvoltura, Botero transita do drama ao lirismo, passando por recriação do cotidiano. Com exceção dos nus femininos, saborosa celebração da sensualidade, todos os trabalhos carregam olhar jocoso, ironias corrosivas. A intenção de critica social é revelada por figuras robustas, de olhar desconfiado e congelada imobilidade, aspectos que dão aos personagens um calculado fingimento, como se dissimulassem os dramas que vivem.

Se a “fofura” dos personagens chama a atenção, é a habilidosa composição da cena a partir da desproporção dos elementos que revela, discretamente, deformações, apatias, arrogâncias, pretensões, alienações, violências, desejos, hipocrisias etc. Posta de forma sedutora, trata-se de fina ironia dirigida contra os cacoetes políticos, econômicos, sociais e artísticos das elites latino-americanas. Com o tempo, o recurso irônico tornou-se consideração sobre toda a sociedade. Impressiona o fato de serem pinturas tão diretas e, ao mesmo tempo, ricas de motivos que fazem com que a observação sociológica não seja a única (e talvez nem a principal) porta de acesso à arte do colombiano.

PÚBLICO A jornalista Isabela Meireles levou a amiga Fernanda Basilia Lemos, estudante de agronomia em Viçosa, para ver a exposição de Botero. Isabela justifica que a temperatura amena da galeria em contraste com o calor das ruas, a gratuidade e o fato de a dupla gostar de arte fez da exposição uma boa opção de lazer. “Adorei o passeio”, conta Fernanda. “Já tinha visto imagens das obras e conhecia nome Fernando Botero, mas não ligava as duas coisas”, conta. Ela adorou as esculturas, em especial um nu em mármore, pela capacidade de o artista levar linguagem detalhista e delicada para a pedra. “É impressionante”, afirma. “Achei interessante também ser um artista latino-americano e vivo”, observa. Fernanda, por sua vez, elogiou as cores das pinturas, a harmonia das formas e a beleza das peças.

Saber que Botero é um artista vivo e na ativa também chamou atenção do estudante de design Raphael Josef Ottoni. “Ser uma arte feita hoje rompe com a sensação de que arte relevante, autêntica e original é só a do passado”, observa. “É muito interessante o contraste de pintura com cores vivas e alegres com personagens tristes”, analisa. “O modo sedutor como Botero pinta pessoas gordas derruba preconceitos. Muita gente vai se identificar”, aponta, lembrando que vivemos em época de luta contra preconceitos e discriminações.

Para a professora de artes Stefânia Maria de Oliveira, a exposição ganha importância por apresentar trabalhos de um artista latino-americano. “Sinto falta no circuito de exposições, de Belo Horizonte e do Brasil, de mais mostras de artistas da América Latina. A maioria das grandes exposições são dedicadas a artistas europeus”, critica. “É importante conhecer os nossos artistas”, defende Stefânia, explicando que tal fato dá à mostra um papel especial para a formação educacional. Stefânia gostou do que viu: “As cores são vibrantes e são obras que trazem os gordinhos de volta ao mundo de forma leve. É uma intrigante visão sobre o mundo”, acrescenta.

Fernando Carvalho Ribeiro, servidor público, foi ver a exposição com Stefânia e também aprovou tudo. “São trabalhos impactantes pela representação da volúpia dos personagens e, nesse sentido, diferente do que estamos acostumados a ver. E há muita beleza na pintura dele. Considero que se trata de um dos grandes artistas vivos do mundo”, afirma. Ribeiro se surpreendeu com as esculturas, linguagem que nem sabia que o colombiano dominava. Os dois visitantes consideram que a exposição deixa vontade de ver uma mostra maior do artista e de outros latino-americanos.

CAPRICHO O poeta Jovino Machado viu três vezes a mostra Dores da Colômbia, apresentada no Museu de Artes e Oficios. “Botero é um artista de imensa qualidade. Seja pelo domínio da técnica da pintura quanto pelo conteúdo das obras”, afirma. Para ele, a exposição no Museu Inimá de Paula evidencia um aspecto saboroso da obra do artista: o detalhismo. O capricho na elaboração das obras pode ser notado no cuidado com que o artista trata unhas pintadas, batom e lacinhos de fitas das personagens. “É bom saber que existe um pintor vivo que faz um trabalho tão maravilhoso”, acrescenta.

Antes de criar suas famosas figuras redondas, Botero estudou na Europa e trabalhou como ilustrador em jornais, experimentando vários estilos. Mas foi com suas figuras femininas rechonchudas que conquistou o público. Em entrevista ao jornal El Mundo, em 2014, o artista negou obsessão por mulheres gordas. “As mulheres dos meus trabalhos não são gordas, são volumosas. Ninguém acredita quando digo isso, mas é verdade. Eu pinto volumes, atraído pela sensualidade das formas”, explicou. Ele já creditou essa opção ao fato de que, na América Latina, a gordura ser sinal de saúde, alegria de viver e lugar com comida boa. A robustez remeteria ainda a um povo alimentado por mitos e lendas, que adora símbolos e alegorias e cuja qualidade criativa é o exagero e o excesso.

 

FERNANDO BOTERO
Exposição de escultura, pintura e desenho. Museu Inimá de Paula (Rua da Bahia, 1201, Centro, (31) 3213-4320). Terça, quarta, sexta-feira e sábado, das 10h às 18h30; quinta-feira, das 12h às 20h30; e domingo, das 10h às 16h30. Entrada franca. Até 27 de novembro.

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