Mostra de esculturas e oratórios de Hélio Siqueira expõe embate entre a obra de arte a peça utilitária

A abertura da exposição 'Uma questão de fé' será amanhã, dia 12, no Centro Cultural UFMG, em BH, com entrada franca. Pinturas do artistas também estão incluídas

por Walter Sebastião 11/08/2016 09:45

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Fotos: Paulo Miranda/divulgação
(foto: Fotos: Paulo Miranda/divulgação)
Leva ao nome de Uma questão de fé a exposição de Hélio Siqueira que será aberta amanhã, no Centro Cultural UFMG, apresentando 13 grandes esculturas e 30 oratórios em cerâmica, além de 45 pinturas. Os trabalhos foram realizados nos últimos 12 anos pelo artista plástico, que vive em Uberaba.


Siqueira tem três décadas de carreira. Depois de se dedicar à pintura, o mineiro, ainda que produza trabalhos nessa técnica, concentrou-se na cerâmica. A exposição integra o projeto Memória das Artes Visuais.

O curador Rodrigo Vivas explica que a proposta é oferecer uma visão geral da obra de autores com presença consolidada no circuito de arte. “Queremos evidenciar questões trazidas pela permanência de uma pesquisa artística ao longo do tempo”, diz. A opção se deve às poucas oportunidades oferecidas pelo sistema de arte de Minas Gerais de observar, de forma mais rigorosa, as relações entre a produção atual e a criação anterior dos mineiros.

O projeto já promoveu mostras de Mário Azevedo e Paulo Miranda. Além da exposição, prevê o lançamento de catálogo, distribuído para instituições ligadas ao setor.

Vivas diz que os trabalhos de Hélio Siqueira colocam duas questões: a tensão entre utilitário/artístico e entre popular/erudito, além do desafio para a decifração iconográfica das imagens. O primeiro aspecto, explica, evidencia-se na exploração com interesse expressivo da cerâmica, técnica usada para a produção de utensílios. O segundo está na criação de peças de temática religiosa, mas tornando rarefeita a visibilidade dos atributos que identificam os santos. Outra abordagem, só que tensionando o erudito e o popular, está na série de oratórios em cerâmica criada por Siqueira.

O curador diz que essas práticas levam as imagens a se tornarem pura forma. “De outro lado, faz com que a peça ganhe e revele conteúdos até então da experiência religiosa, mas que não são explicitados, como é o caso da sensualidade e até um certo erotismo”.

PINTURA A opção de expor pinturas de Hélio Siqueira, linguagem que o artista diz ter abandonado, veio da vontade de “mostrar algo que foi apagado”, explica Vivas. São paisagens e retratos, em ambos os casos revelando um artista às voltas com exploração – “bem-elaborada”, pontua o curador – de massas e variações cromáticas. “Hélio Siqueira pensa a matéria da pintura”, resume.

O título Uma questão de fé carrega uma ironia, observa Vivas. Além de remeter a motivos religiosos presentes nas peças, alude à enorme dificuldade de realizar exposições com o perfil dessa mostra, que prevê viagens, pesquisa e reunião de obras, com todas as despesas por conta do artista. “Infelizmente, só podemos ajudar oferecendo a infraestrutura para que a mostra aconteça”, lamenta.

Vivas critica a ausência de projetos dedicados a artistas mineiros, mostrando de forma mais ampla o desenrolar dessas carreiras. “Que colaborem para a formação de fortuna crítica sobre a obra e intervenham no circuito de arte, incentivando o debate”, acrescenta.

De acordo com o curador, a dificuldade desse tipo de mostra atinge, inclusive, a pesquisa acadêmica. Estudos históricos são feitos, às vezes até editados, mas apenas episodicamente vêm acompanhados da apresentação pública do material que os subsidiou. “O resultado disso traz a sensação de estudo do passado pelo passado. E obra de arte não deveria ser passado. Ela só ganha sentido à medida que se constrói o diálogo entre o realizado e o presente”, afirma.
Rodrigo Vivas já publicou o livro Por uma história da arte em Belo Horizonte (C/Arte). Em setembro, vai lançar Abstrações em movimento, pesquisa realizada a partir de obras de artistas premiados pelo Salão de Arte de Belo Horizonte na década de 1960.

UMA QUESTÃO DE FÉ

Esculturas e pinturas de Hélio Siqueira. Abertura amanhã, às 19h. Centro Cultural UFMG. Avenida Santos Dumont, 174, Centro, (31) 3409-8290. O espaço funciona de terça a sexta-feira, das 10h às 21h30, e aos sábados e domingos, das 10h às 18h. Em cartaz até 30 de outubro. Entrada franca.

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