Músicos e poetas se reúnem em 'Poemúsica', performance em homenagem a Augusto de Campos

Obra do mestre concretista dá o tom do espetáculo, que ocupará o palco do Grande Teatro do Sesc Palladium na noite de hoje, dia 10

por Eduardo Tristão Girão 10/08/2016 08:30

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GloboNews/Reprodução
(foto: GloboNews/Reprodução)
A performance Poemúsica, que ocupará o palco do Grande Teatro do Sesc Palladium, em Belo Horizonte, hoje à noite, tem jeito de produção das mais modernas. Poesias e músicas são mescladas ao vivo, tendo projeções, vídeos e animações ao fundo. A banda, liderada por Cid Campos, receberá como convidados Péricles Cavalcanti, Arnaldo Antunes e Edvaldo Santana, além dos poetas mineiros Carlos Ávila e Ricardo Aleixo. Permeando tudo isso, entretanto, está a obra do poeta paulistano Augusto de Campos (pai de Cid), de 85 anos, grande nome do concretismo, que iniciou sua carreira mais de seis décadas atrás.


“Meu pai tem trabalho contemporâneo. Uma quantidade incrível de jovens conhece ele, crianças estudam poesia concreta e há uma ligação muito forte. Interessam-se, entendem, curtem. É especialíssimo. A poesia concreta antecipou toda essa visualidade que temos hoje com a internet e o Augusto desponta com essa coisa da computação, da animação dos poemas. Isso veio da máquina de escrever, passou pela letra set, pelas canetas hidrográficas coloridas e chegou à era dos computadores. E está tudo certo. A produção do meu pai continua e a apresentação dos trabalhos está cada vez mais bonita”, analisa Cid Campos.

Para o espetáculo de hoje, que integra a programação de comemoração dos cinco anos do Sesc Palladium, ele montou repertório com pouco mais de 20 canções, quase todas elas assinadas por seu pai – sozinho ou com parceiros que são pilares do concretismo, como o irmão, Haroldo de Campos, e Décio Pignatari, sem contar os próprios convidados da noite. Estão no programa, ainda, traduções antológicas feitas por Augusto, a exemplo de Elegia, feita a partir de texto de John Donne, poeta inglês do século 16, com música assinada por Péricles Cavalcanti.

Trata-se de miscelânea de quatro discos de Cid: Poesia é risco, No lago do olho, Fala da palavra e Nem, sendo que, no primeiro, ele e o pai são parceiros. A propósito, os dois têm trabalhado juntos em gravações, shows performances e exposições ao longo de 30 anos. No palco idealizado para este espetáculo, a música se torna espécie de ponto de encontro para conexões com outras formas de arte e a palavra ganha autonomia para romper limites. Entre as obras de destaque estão Tensão, Sem saída, O que quer que, Cançãonoturnadabaleia e as traduções Elegia (John Donne), Nuvolleta (James Joyce) e O pulso das palavras (Vladimir Maiakovski).


Cid conta que a ideia de montar o espetáculo surgiu após exposição em homenagem ao pai realizada em São Paulo, nos anos 1980, com participação de artistas do quilate de Caetano Veloso e Walter Franco. “Reuni grupo grande de compositores e mostramos recortes dos trabalhos desses músicos com poemas e traduções do Augusto. O show tem parte visual muito forte e nem sempre é fácil fazer isso, pois são poemas que quase sempre não foram feitos para ser musicados. Alguns, inclusive, são da fase bem radical da poesia concreta. Mostramos para o público um outro lado, com canções e traduções”, explica.

QUADRADÃO

Se é fácil musicar esse tipo de matéria-prima? “Gosto de pegar um poema, poucas palavras e criar ambiência sonora para aquilo, fazer aquela letra acontecer de outra forma. A poesia é muito diferente da letra de música. É mais direta, não tem um refrão ou regras que facilitem a coisa. No caso da poesia, é preciso extrair tudo com a própria poesia”, responde Cid. Ele aponta o encontro de poetas e músicos da área contemporânea, nos anos 1960, como ponto de partida de experimentações do tipo, seguido de ampliação do alcance dessas obras graças à aproximação com o Tropicalismo.

A popularização dos computadores, décadas depois, também ajudou muito nesse processo. Augusto de Campos, conta seu filho, teve seu primeiro computador no começo da década de 1990 – era um Mac Classic, de visual quadradão. “Ele sempre gostou de computação e nesse le fez a capa do meu disco Poesia é risco. Na mesma época, montei um estúdio de áudio que virou espécie de QG dos poetas. A gente gravava muito, fazia muitas daquelas experiências de oralização que até então eram feitas com dificuldade. E fazíamos isso com efeitos, experimentando coisas como samplers. A partir disso aconteceu muita coisa”, relata Cid.

 

RITMO E POESIA

Para Péricles Cavalcanti, um dos convidados de Poemúsica, transformar em canção poemas que não foram concebidos levando em consideração a música é, antes de tudo, algo natural: “Não é nada doído. Doído é forçar música em cima de um texto ótimo, mas sem vocação para ser musicado. A unidade de letra e música é o que mais gosto. Cole Porter, Irving Berlin, Ary Barroso, Tom Jobim, Nelson Cavaquinho. Quando o cara faz letra e música, você vê que a unidade entre as duas é mais natural. Às vezes, a coisa surge tão naturalmente que nem chega a ser um desafio, a gente vira veículo para aquilo aparecer. A coisa está além do autor”.

Elegia, conta ele, é um exemplo disso. Cavalcanti ganhou livro de Augusto de Campos com sua tradução para o texto de John Donne, nos anos 1970, e a leitura daquilo lhe soou musical de primeira. “Naturalmente, entre tantos outros poemas que estavam no mesmo livro.” Para ele, distinguir um poema de séculos atrás da canção popular, como se um fosse alta e o outro fosse baixa cultura, não faz sentido. “Para mim, não importa. Dou tratamento pop a alguma coisa quando aquilo me sugere que deva ser feito assim, por exemplo”, resume. Mesmo caso de Nuvolleta, que Augusto traduziu de James Joyce e ele musicou.

Foi a intimidade do veterano concretista com a música popular, continua ele, que deu vocação musical a traduções como Elegia – ou “coloquialidade poética”, como prefere Cavalcanti. Provavelmente, a mesma característica que pavimenta o caminho para outros compositores, como Edvaldo Santana, que também subirá ao palco hoje à noite. Feita por Augusto de Campos, a tradução de Canção, do poeta europeu do século 11 Guilhem de Peitieus, virou música nas mãos de Santana.

Algo natural, sim, mas não menos trabalhoso, como gosta de advertir: “É um trabalho que tem de ter dedicação. A poesia tem o ritmo dela, natural, de quem a escreve. Quem faz a música tem outra visão. A música é diferente da poesia. Me empenho bastante até ficar pronto, rebuscando, mexendo. É claro que já existe um caminho com a poesia, mas não deixa de dar trabalho. Tenho uma veia popular e transito fácil por esses e outros universos de pensamento. Arte é algo dinâmico e exige movimento, lapidação, depuração”.

 

POEMÚSICA

Performance de música e poesia em homenagem a Augusto de Campos. Hoje, às 20h, no Grande Teatro do Sesc Palladium (Avenida Augusto de Lima, 420, Centro). Entrada franca, com retirada de ingressos 30 minutos antes do espetáculo. Informações: (31) 3270-8100.

 

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