Livro 'Destinos e fúrias' busca inspiração no teatro e na mitologia grega para abordar o sexo

Obra da escritora Lauren Groff foi um dos livros mais comentados de 2015 nos Estados Unidos

por Estado de Minas 27/07/2016 08:52

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Penguin Books/Divulgação
A escritora americana Lauren Groff, elogiada pelo presidente Barack Obama pelo seu segundo romance (foto: Penguin Books/Divulgação)

A escritora americana Lauren Groff foi buscar na mitologia grega a inspiração para construir os personagens de Destinos e fúrias (Intrínseca). Moiras, segundo a tradição, são as três irmãs que tecem o fio da vida, senhoras dos destinos. As erínias, chamadas pelos romanos de fúrias, são as personificações da vingança que punem os mortais. São essas duas forças que movem Lotto e Mathilde, casal protagonista do romance.

Um dos livros mais comentados do ano passado, finalista do National Book Award e eleito o favorito do presidente Barack Obama em 2015, o romance aborda um dos temas mais recorrentes da literatura – o casamento – de modo pouco usual. A começar pela grande quantidade de cenas de sexo, um objetivo da autora desde que começou a rascunhar as primeiras páginas, enquanto ainda escrevia o seu romance anterior, Arcadia (inédito em português).

Lauren argumenta que há uma desproporção entre a presença do sexo nas nossas vidas e sua presença na ficção em geral. “Como escritora, sempre fiquei afastada desse assunto e me questionei o porquê. Eu estava com medo. Com medo de as pessoas dizerem que eu não poderia falar sobre isso. E, francamente, é uma bobagem. Na maior parte das narrativas sobre o casamento não há sexo. E por muitos séculos, até hoje, sexo é uma das razões fundamentais para se casar. No livro, muitas vezes os personagens não conseguem expressar suas emoções através das palavras e o fazem através dos seus corpos”, diz a escritora, em entrevista por Skype de sua casa em Gainesville, na Flórida. “Dependendo do leitor, eu acho que posso ter mais ou menos sucesso, mas, honestamente, eu prefiro ver mais sexo em romances e não menos.”

O livro é dividido em duas partes. Em “Destinos”, quem conduz a narrativa é Lotto. Herdeiro de uma fortuna, dono de um carisma fora do comum e um sucesso avassalador com as mulheres, ele nunca precisa se esforçar para conseguir o que quer. Sua carreira de conquistador acaba ao avistar Mathilde numa festa, por quem se apaixona e com quem se casa semanas depois, escondido da família. Por quase 200 páginas, a mulher vive à sombra do marido.

Revelações

Na segunda parte, intitulada “Fúrias”, é Mathilde quem conduz a história, pragmática e vingativa. Os 24 anos de casamento ganham outra perspectiva na sua voz, e surgem revelações. Lotto nunca se perguntou quem Mathilde era, nunca quis saber sobre o seu passado. A esposa doce e obediente, compreende-se então, era uma construção sua. O que não os impediu de se amarem por mais de duas décadas.

As ambiguidades do casamento, os papéis que homem e mulher assumem na relação e as regras invisíveis que atravessam essa instituição fascinam Lauren e a levaram a escrever. “Na verdade, sou bastante ambivalente em relação ao casamento. Sou casada, mas continuo pensando que, historicamente, essa instituição é uma bagunça. É algo misógino, um desastre. Eu queria pensar sobre as regras para as mulheres, o que elas escolhem para elas e por que fazem essas escolhas para si mesmas. Eu não sabia se tinha algo interessante a dizer sobre o casamento. Mas quando você sente uma ambiguidade tão intensa sobre alguns aspectos da sua vida, aí você vê que, se pressionar bem forte, pode encontrar um romance”, afirma ela.

Lauren reconhece que o teatro é uma influência importante de Destinos e fúrias. Lotto é ator e, após uma trajetória de mais baixos do que altos, descobre-se, ou melhor, é descoberto por Mathilde como um dramaturgo talentoso. Ao longo da narrativa, volta e meia o leitor é surpreendido por comentários entre colchetes que, explica a autora, fazem a função do coro das tragédias gregas. Em outros momentos, personagens secundários irrompem trazendo novas perspectivas sobre o casal. Os dois elementos formam, assim, uma terceira dimensão da narrativa e do casamento de Lotto e Mathilde.

A autora argumenta que “um casamento não é só intimidade, não ocorre apenas no espaço entre duas pessoas. É também uma performance na frente de outras. Você vai a uma festa, vê um casal. O fato de eles estarem juntos se torna a única ideia de quem eles são”. Lauren afirma que queria ter certeza de que “as diferentes ideias sobre o que era o casamento de Lotto e Mathilde estivessem refletidas na narrativa”. “Tenho alergia à simplicidade. Acredito que as coisas são incrivelmente complexas e complicadas. Há muita beleza na ambiguidade.” (Agência Globo)

Destinos e fúrias


. De Lauren Groff
. Intrínseca, 368 págs.
. R$ 39,90 (livro) e R$ 24,90 (e-book)

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