Exposição sobre Mondrian incentiva selfie do público e supera 16 mil visitantes na primeira semana

Com foco na formação de novos públicos, mostra do pintor holandês em BH propõe ações lúdicas e interativas

27/07/2016 08:00

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Rodrigo Clemente/EM/D.A.Press
Game na entrada da exposição testa memória e agilidade do visitante a partir de reproduções de telas de Mondrian (foto: Rodrigo Clemente/EM/D.A.Press)

Patrícia tem 37 anos, mora em Ibirité. Ana tem apenas 8 e é de BH. A espanhola Beatriz tem 20 e poucos, enquanto o casal Roberto e Renata, de Guarapari, é pelo menos uma década mais velho. Esses são alguns dos frequentadores que circulavam pelas galerias da exposição Mondrian e o movimento De Stijl, aberta há uma semana no CCBB, em BH. As obras do pintor holandês, como se nota, estão atraindo pessoas de variadas origens e idades.

Seja pela localização convidativa do prédio, na Praça da Liberdade, ou pelo calendário, que abraça a massa infantojuvenil de férias nesta segunda quinzena de julho, ou ainda pela declarada proposta de difundir a arte e se abrir para todos os públicos, a exposição tem mostrado uma pluralidade de público condizente com o que se espera de um evento gratuito e uma popularidade nem sempre observada em outros espaços dedicados às artes visuais na capital mineira.

Nos primeiros seis dias em Belo Horizonte, a exposição foi vista por 16,7 mil pessoas. O dia de maior público foi o domingo, quando mais de 3,2 mil pessoas passaram pelas galerias do CCBB.

Na primeira sexta-feira em cartaz, o prédio do CCBB se mostrava bem movimentado desde sua entrada. As filas não são grandes, mas o comportamento da maioria é inquieto. Se na cabeça de muita gente os museus ainda são espaços destinados à erudição e quase restritos àquelas pessoas mais familiarizadas com as linguagens e a história da arte, para o holandês Pieter Tjabes, curador da exposição, isso não vale. Assim como foi em A magia de Escher, que esteve no Palácio das Artes em 2013, também sob sua curadoria, todos são muito bem-vindos em Mondrian e o movimento de Stijl parar conhecer, curtir e tirar suas selfies.

“Nossa fórmula é misturar linguagens mais sérias com outras mais lúdicas, desde Escher fizemos isso e notamos que um público maior se aproximou da arte, inclusive gente que nunca havia frequentado nenhum espaço cultural”, afirma Tjabes.

Os visitantes da exposição no CCBB são convidados a interagir com a mostra e tirar suas próprias fotos. Logo na entrada, dois espaços são especialmente dedicados a isso. Há uma reprodução em tamanho gigante da cadeira vermelho azul (1923) do arquiteto e designer Gerrit Rietveld, com licença ao público para se sentar e tirar fotos, e um painel em que o visitante aparece na foto inserido em uma das famosas telas de Mondrian.

Espera-se que as pessoas compartilhem essas imagens nas redes sociais, fazendo uma propaganda espontânea da exposição, tal qual havia ocorrido com A magia de Escher. Além disso, a selfie na entrada “faz com que as pessoas satisfaçam a necessidade da foto e não precisem tirar outras dentro das galerias, o que pode atrapalhar outras pessoas”, nas palavras do curador.

O resultado é uma abertura para os menos habituado às artes. Patrícia Monteiro é professora. Dá aulas em Ibirité, onde mora, e em Contagem. Com as escolas em recesso, ela aproveitou a tarde livre de sexta-feira para sair de sua residência na Região Metropolitana junto com o filho Samuel, de 7 anos, buscar o sobrinho Felipe, de 13, em Santa Luzia, e conferir a arte de Mondrian, a partir da sugestão de uma colega, que dá aulas de artes.
Rodrigo Clemente/EM/D.A.Press
Visitantes são convidados a se fotografar em réplica da cadeira vermelho azul (1923), de Gerrit Rietveld, arquiteto do movimento De Stijl (foto: Rodrigo Clemente/EM/D.A.Press)

“Eu só tinha contato com a Praça da Liberdade na época da iluminação natalina. Hoje temos esse belo circuito aberto ao público. Na minha infância, não tive a oportunidade de ter acesso a espaços culturais assim e tento fazer agora junto com meu filho e meu sobrinho”, diz Patricia, que levou os pequenos também ao Museu das Minas e do Metal, do outro lado da praça.

Dentro do que a curadoria propõe, as crianças são extremamente bem-vindas. Logo no início da exposição, há uma sala dedicada a elas, com jogos interativos em torno da estética do De Stijl (O estilo). É possível reconstruir algumas obras com ímãs e disputar com outro participante quem consegue reproduzir a tela mais rapidamente, organizando as icônicas formas coloridas em um dispositivo virtual.

Entre a criançada absorta nas atividades, muitas pela primeira vez num museu fora de qualquer atividade escolar, a pequena Ana Castro, de 8 anos, se destaca não apenas pela extroversão, mas pela familiaridade com a arte.“Gosto de ir a museus para ter novas ideias, criar coisas e contar para os meus amigos sobre o que vi”, diz a menina, que conta já ter ido ao CCBB anteriormente para conferir outras exposições, como a de Kandinsky, no ano passado. Ana ainda convidou um amiguinho, Guilherme, também de 8 anos, para ir com ela. O passeio foi proporcionado pela mãe, Cristina Castro. A exposição virou item na programação de férias para várias famílias que procuram o que fazer na cidade nos dias de julho.

ORGANIZAÇÃO Além de ser uma boa oportunidade para leigos se familiarizarem com a pintura abstrata, o evento se configura como destino certo para quem já tem a cultura e a arte como primeira opção de lazer. A professora de filosofia Sabrina Sedlemayer, de 47 anos, foi na companhia do filho João, de 13. “Costumamos vir muito ao CCBB. Gostei muito da exposição, é muito organizada e mostra a trajetória do artista de forma bem completa”, afirma Sabrina. Caso semelhante é o do casal Roberto e Renata Porto, que veio de Guarapari passar férias na capital mineira com a filha Beatriz, de 6. “Sempre procuramos o CCBB por onde vamos. Já havíamos visitado o do Rio, o de São Paulo e agora conhecemos o de BH. Tentamos sempre frequentar esses espaços voltados para a arte e colocar nossa filha em contato com isso”, diz Roberto.

Encontrar turistas entre os visitantes da exposição não é difícil. A espanhola Beatriz Martínez, por exemplo,  que trabalha com filantropia internacional, veio a BH visitar um amigo, designer e fã dos trabalhos de Mondrian. Passando de ônibus pela Praça da Liberdade, surgiu a ideia de comparecer ao CCBB. “É a primeira vez que vejo algo do Mondrian. Adorei, especialmente a segunda parte, que o mostra mais desenvolvido em suas características”, avalia. Acostumado a se inspirar nas linhas do holandês, o amigo de Beatriz também gostou da mostra. “Sou fã do artista e fiquei impressionado com o espaço. Já tinha visto Mondrian fora do Brasil, mas nunca numa mostra grande como essa”, afirma Benjamin Brito.

Quem vai ao CCBB conferir a obra de Piet Mondrian e a história do surgimento do movimento De Stijl certamente não encontrará o silêncio quase sepulcral típico de alguns museus e galerias. Durante os fins de semana, com ainda mais gente presente, a movimentação possivelmente incomodará aqueles que buscam um momento de introspecção e viagem pessoal na obra e nos conteúdos didáticos que a exposição oferece, com textos, áudios e vídeos sobre o tema.

No entanto, tudo atende ao planejamento dos responsáveis pela iniciativa. “Quando fazemos uma exposição dessa, que é gratuita e financiada por recursos públicos, graças à Lei Rouanet, não podemos nos esquecer de que temos que contemplar quem vai pela primeira vez, além de quem já conhece a história da arte. A exposição tem várias camadas para quem já tem um conhecimento e quer aprofundar isso, mas também proporciona momentos lúdicos para outros públicos”, diz o curador Pieter Tjabes. Mondrian e o movimento De Stijl ficará em cartaz até 26 de setembro.

Mondrian e o movimento De Stijl
Exposição de obras do pintor holandês e de seus contemporâneos. No Centro Cultural Banco do Brasil (Praça da Liberdade, 450, Funcionários). De quarta a segunda, das 9h às 21h. Telefone: (31) 3431-9400. Entrada franca.

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