Ladislau Kardos chama a atenção no papel do baterista em Chet Baker

Paulista deixou de lado a carreira de ator por não se julgar "à altura" do ofício é um dos destaques da montagem

por Ana Clara Brant 24/07/2016 12:39

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Helvécio Carlos/EM/D.A. PRESS
Ladislau Kardos no cenário de Chet Baker - Apenas um sopro. Os pratos da bateria são os que ele herdou de seu pai, que trocou o instrumento pelo trabalho na fábrica do avô (foto: Helvécio Carlos/EM/D.A. PRESS)

“Você é ator, músico ou os dois?” Essa tem sido a pergunta mais ouvida nos últimos meses por Ladislau Kardos, um dos integrantes do elenco de Chet Baker – Apenas um sopro, que faz as duas últimas apresentações de sua temporada em BH hoje e amanhã, no Centro Cultural Banco do Brasil. O paulistano de 34 anos interpreta Albert Phill, um baterista em início de carreira que aproveita a chance para tocar ao lado de grandes nomes do jazz, incluindo o lendário trompetista e cantor norte-americano Chet Baker (1929-1988).

Todo o elenco da peça tem intensa relação com a música, a começar pelo protagonista, o ex-Titã Paulo Miklos. Anna Toledo faz a cantora Alice, Jonathas Joba, o papel do contrabaixista Rick e Piero Damiani interpreta o pianista David. Com exceção de Piero e Miklos, os demais tinham experiências anteriores no teatro.

Para Ladislau, a montagem marca sua reestreia no tablado. Ator-mirim de comerciais, ele chegou a fazer teatro amador no colégio, depois estudou na Escola Superior de Artes Célia Helena, na capital paulista. No entanto, acabou deixando as artes cênicas de lado por um bom tempo. “Acho que me afastei porque é um universo que respeito muito e ao qual as pessoas se dedicam demais. Na época, eu não estava me entregando à altura. Tinha até um certo temor, achava que era um grande desafio e acabei partindo para outros caminhos”, conta.

Ladislau – nome que herdou do pai, do avô e do tataravô e que foi um rei da Hungria, origem de sua família – decidiu se dedicar à música, mais especificamente à bateria. Autodidata, um dia encontrou o instrumento em sua casa e não parou mais. “Meu pai também era baterista, mas abandou, porque foi trabalhar na fábrica do meu avô. Inclusive esses pratos que compõem a bateria do cenário eram os que meu pai tocava no final dos anos 1960. E neles está toda a história da minha vida ligada à música. Eles carregam uma energia muito grande, porque dei continuidade a algo que meu pai largou para trás”, destaca.

Quando o elenco de Chet Baker – Apenas um sopro estava sendo formado, produção e direção procuravam gente que tocasse algum instrumento, fosse ator ou não. Indicado pelo pianista Piero Damiani, responsável pela direção musical, Ladislau Kardos viu ali uma chance de retomar sua adormecida carreira de ator. “Eles estavam atrás de um baterista. E esse convite veio de uma forma que me deu vontade de voltar a atuar. De tudo que já fiz na vida, o teatro é a coisa que mais me deu angústia, desespero e prazer ao mesmo tempo. Talvez isso se explique pelo meu excesso de autocrítica, pela pouca experiência. Mas achei sensacional, porque acabei unindo as duas coisas que adoro. Talvez, se não tivesse sido assim, não sei se teria rolado essa retomada como ator. Essa peça é um presente em vários aspectos”, afirma.

Na peça de Sérgio Roveri, Albert Phill é um baterista de 22 anos, convidado para gravar naquela que seria a volta de Chet Baker aos estúdios depois da surra que o fez perder os dentes e ficar afastado dos palcos. A dúvida sobre se o trompetista será capaz de voltar a tocar permeia a tensa relação que se desenvolve entre os músicos à espera da chegada da estrela. Mascote da turma, Phill se transforma no alvo da ironia e do desdém dos veteranos, que só se referem a ele como “garoto” ou “moleque”.

FIM DA DÚVIDA A repercussão da interpretação que Ladislau Kardos dá ao nerd com paciência (quase) ilimitada tem sido tão positiva que o músico não tem dúvidas de que quer investir no ofício de ator. Aliás, durante a temporada paulista da peça, iniciada em janeiro passado, surgiu um convite para Ladislau protagonizar o curta Morre, diabo!, um conto sombrio sobre um viciado em drogas numa viagem paranoica. O filme chegou a ficar em 8º lugar no My Rode Reel, festival internacional de curtas on-line que contou com 1.200 concorrentes.



“Vou me dedicar bastante a isso. Estão pintando alguns testes também, mas nada de concreto ainda. Acho que eu tinha um bloqueio interno, um medo de me expor, e agora as coisas estão fluindo. Para o ator, é fundamental fazer teatro, porque é algo muito vivo. Quero muito continuar nessa praia.”

Isso não significa, porém, que a bateria vai ser abandonada. Até porque, mesmo quando estava em outras empreitadas, a “batera” sempre esteve ao seu lado. “Fiz várias coisas para me virar. Agência de comunicação, trilha para cinema, cheguei a ajudar a montar o estúdio do Jota Quest aqui em BH, produzi e planejei eventos e a bateria sempre esteve ali, para o bem e para o mal. Não tem como abrir mão disso.”

Atualmente na banda Elephant Run, que acaba de gravar o primeiro disco, Ladislau avalia que a música pode conviver harmoniosamente com a interpretação e cita o exemplo de Paulo Miklos, que começou tardiamente a carreira de ator, há 15 anos, e hoje a concilia com sua vida de cantor. “Na verdade, ele não me deu nenhum conselho nesse sentido, mas fez melhor do que isso. Ele me deu muito o ombro. Paulo é um cara incrível. Às vezes, você conhece um ídolo, um cara que a gente escuta e ouve a vida inteira, e acontece de se frustrar. Mas com ele foi justamente o contrário. Ele é uma figura extremamente família, se nivelou com todo mundo e foi fundamental para que tudo desse certo nesse espetáculo.”

CHET BAKER – APENAS UM SOPRO
Hoje e amanhã, às 20h, no Centro Cultural Banco do Brasil, Praça da Liberdade, 450, (31) 3431-9400. Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia). Informações: bb.com.br/cultura

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE ARTES E LIVROS