Conheça os artistas que têm o hábito de ajudar colegas em início de carreira

O EM apresenta exemplos de quem dá uma força mas não se vangloria disso

por Walter Sebastião 23/07/2016 07:00

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Quinho/EM
(foto: Quinho/EM)
Existe uma figura no mundo cultural de quem se fala com discrição e respeito: pessoas, várias delas artistas, que apoiam quem demonstra vontade e talento, verdadeiros, para as artes. Gente, entregam os admiradores, que conversa, dá conselhos, ensina o que sabe, interessada exclusivamente em contribuir com o aprimoramento profissional de um colega ou jovem artista. São, ainda, interlocutores dos criadores em momentos de crise ou na avaliação de caminhos tomados. Às vezes, o apoio é material, seja facilitando acesso a equipamentos de trabalho ou até saldando dívidas urgentes. A turma também ajuda causas e projetos em que acredita. Os ouvidos nesta reportagem são apenas alguns exemplos.

João Carlos Choairy, de 81 anos, é de São Bento, interior do Maranhão, e vive em Belo Horizonte desde 1952. Cresceu ouvindo música flamenca e Jacob do Bandolim. Jovem, foi morar com a madrinha em São Luís, a capital maranhense. Foram tempos em que cultivou gosto pelo canto e o violão. Estimulado pelo marido da madrinha, que tocava violão clássico e aos sábados participava de grupos de seresta, viu Waldir Silva tocando, encantou-se pelo cavaquinho e passou a se dedicar a ele. Embora tenha tocado com muita gente, o ídolo e mestre que reverencia com carinho continua sendo Waldir Silva. Ele também adora ver gente nova se dedicando ao chorinho.

Há alguns anos, ao descobrir um luthier que fazia cavaquinhos, Choary não teve dúvidas: comprou quatro instrumentos pagando em dólar. Um deles era para ele, outro deu para o amigo Waldir Silva. “Como o dele não era uma Brastemp e solos com tampo de pinho sueco ficam melhores, achei que Waldir gostaria de um instrumento melhor.” Mas o novo cavaquinho de Waldir Silva acabou sendo roubado. E Choary deu ao mineiro um segundo cavaquinho. “Fui movido por amizade. Éramos irmãos”, diz, lembrando que tocaram juntos por muitos anos.

Com o tempo, doou instrumentos para cinco músicos que admirava. Por diversos motivos, como explica, sendo o mais comum o caso de músicos humildes e talentosos. Houve vezes em que ele ouviu o músico tocando e gostou tanto que decidiu por uma frase clássica para a ocasião: pode ficar com o cavaquinho. “Deixa os meninos tocarem num instrumento bom. Tenho outros”, afirma, com gentileza e generosidade. “Uma das maiores alegrias desta vida é poder servir aos outros. E colaborar para que músicos toquem direito e façam música benfeita”, acrescenta. “São como filhos, temos de incentivá-los.”

SORRISO “Todos a quem doei um cavaquinho estão fazendo bom uso dele”, observa, satisfeito. Se ouve que o músico prefere o instrumento que ganhou dele, fica mais feliz ainda. “Não quero nada em troca. Só o sorriso, que quase chega às orelhas, me basta. O moço lá de cima tem de dado saúde sem pedir nada em troca. Então, agradeço a Deus e a Nossa Senhora por terem me dado a chance de ajudar os músicos.” Mas ele faz uma ressalva:  “A meninada é muito do rock. Temos de incentivá-los a conhecer e tocar a nossa música mais autêntica, que é o chorinho”, acrescenta o fundador do grupo de seresta Canta Brasil.

O fotógrafo Miguel Aun é respeitado pelos trabalhos que faz, como algumas imagens antológicas de Minas Gerais, como também pela generosidade. Já emprestou equipamentos a colegas, sempre estimulou mais conhecimento da fotografia, cedeu fotos suas para catálogos e publicações, causas ecológicas e culturais, jovens artistas etc. Sua loja de equipamentos fotográficos na Avenida Bias Fortes virou ponto de encontro de fotógrafos para conversar e mostrar fotos. “Era um fotoclube”, brinca Aun. Há quem o considere o pai de toda uma geração de profissionais em atividade em Belo Horizonte.

“Aparecia também na loja muita gente chata, como em qualquer festa. Mas eles ajudam a desmanchar bolinhos e panelinhas”, brinca Miguel Aun. “Sempre tinha alguém interessado em troca de conhecimento, querendo saber mais sobre técnica, tecnologia e arte fotográfica. É muito bom colaborar para o crescimento profissional de uma pessoa”, afirma. Houve dias, recorda, em que ele tinha de trabalhar, saía e deixava o pessoal conversando em seu estúdio.

“É da minha índole ser assim, gosto de gente e de bom astral”, afirma, contando que herdou este perfil do pai, Elias Aun, que criou, em 1935, a Foto Elias (que funcionou até 1995), a primeira a fazer revelação de fotos coloridas na cidade.

“É muito bom ajudar os colegas. Não há motivo para ficar escondendo conhecimento e, podendo, deixar de ajudar a quem quer melhorar na profissão”, afirma Aun. “A melhor opção de vida, não tem jeito, é ter amigos. Eles são essenciais. Fazem a diferença”, diz Aun. Ter bons amigos, enfatiza, faz bem até ao ego, enquanto ter inimigos não acrescenta nada.

 

Amílcar estendia as mãos

 

No depoimento a seguir, a galerista Beatriz Lemos de Sá revela o perfil generoso e solidário de Amílcar de Castro (1920-2002), uma faceta do artista pouco divulgada. “Amílcar de Castro foi homem generoso. Se via amigos, artistas, funcionários dele em dificuldade, prontificava-se a ajudar. Doava esculturas, o que quer dizer trabalhos de valor alto, para ajudá-los a pagar despesas, eventos de caridade, colaborar na criação e manutenção de galerias. Incentivou, ainda, colecionadores importantes a comprar obras de artistas que admirava.

Não dava ajuda apenas material. Ensinava as técnicas que conhecia, com conselhos e conversas, mantinha diálogo com alunos que admirava, mesmo depois de formados. Influenciava a postura deles, defendendo que deviam ser fiéis ao que acreditam, sem fazer concessões ao mercado.

Só ouvi-lo já era um estímulo. Foi um homem preocupado com o social, que não gostava de ser chamado de mestre nem de ser considerado superior a ninguém, que passava a impressão de uma constante vontade de ser extremamente justo com quem precisava ou merecia. Isso sem ficar alardeando que tinha essa postura. Comportar-se assim era do temperamento dele. Talvez isso se deva ao fato de ser filho de juiz, de ser formado em direito e das leituras filosóficas dele.”

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