Mirisola aborda "geração cover" em seu sétimo romance

Com a mesma estética provocante, 'A vida não tem cura' descreve de maneira ácida e cruel os jovens dos anos 1990 através de personagens sem controle sobre suas relações afetivas

por Agência Estado 23/07/2016 07:00

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Arquivo Pessoal/Divulgação
(foto: Arquivo Pessoal/Divulgação)
Aos 50 anos, Marcelo Mirisola lança seu sétimo romance – A vida não tem cura. O narrador se chama  Luis Guilherme – “o corno do All-Star vermelho”. Quem o “corneia” é Natasha, talvez a mais cruel da lista de personagens sádicos e descontrolados que Mirisola criou em sua obra de 17 livros.

O escritor afirma que este livro fala de uma “geração cover”, que cresceu e se multiplicou nos anos 1990. Mas qual é a diferença entre eles e a geração do escritor, imediatamente anterior? “A diferença fundamental é que eles copiaram a nossa. Coitados”, aponta. E a geração seguinte, mais jovem? “Triplamente estropiados, com o agravante das redes sociais, do pelo no sovaco das minas e do Tinder para niná-los.”

O romance traz temas não estranhos para quem tem alguma familiaridade com a obra do escritor: prostituição, crimes, muitas doses de álcool – mas amplia a abordagem ao tratar de assuntos sensíveis, como a violência contra a mulher e relacionamentos com travestis, com a mesma estética provocante. “No caso do narrador desse livro, as coisas se invertem”, diz. O personagem passa um tempo remoendo o fato de ter dado um “soco” na mulher, e o esclarecimento do episódio é um dos pilares do livro. “A tal ponto que ele se culpa por ser vítima. Uma vítima com todos os alvarás e recibos de trouxa, diga-se de passagem. Não duvido que existam muitos ‘Guis’ passando pelo mesmo martírio, rolando dadinho e jogando bilhar.”

O “Gui” do livro é um “professor de matemática delivery” apaixonado por Natasha, com quem foi casado e tem um filha – o romance é uma memória desse cara. O ponto de inflexão é um show de um cover da Legião Urbana, onde os fetiches de Natasha (cujo sonho era “ter uma franquia da Cacau Show”) começam a ser usados contra o próprio casamento.

“Talvez ‘o soco’ tenha nascido no show da Legião-cover quando eu e ela beijamos o negro lindo que elogiou nossa tatuagem”, conta o narrador. Os dois personagens passam então a se relacionar sexualmente com Luigi (“uma das pessoas mais especiais que passaram por minha vida”), e Natasha começa a enfileirar amantes, homens e mulheres. O fim doentio do casamento (que envolve violências dos dois lados) e os resultados disso para o narrador dão o tom do romance. “(A vida não tem cura) nem morrendo”, diz Mirisola. “Se a vida é uma ilusão, como especulam Buda e Calderón de la Barca, e, portanto, não tem cura nem remédio, a morte também pode ser uma trapaça. Pensa nisso. Não é preocupante?”

“feicibuque”

Afastado do status quo da literatura brasileira contemporânea, Mirisola coleciona seguidores e fãs com seus posts originais no Facebook (ou no “feicibuque”, como ele diz) sobre os mais variados assuntos, mas especialmente política e literatura, e aforismos: “O homem que morre em paz, morre endividado com o resto da humanidade” ou “Só sei de uma coisa: ao longo da história da humanidade (Cristo que o diga) – toda vez que o amor foi usado como contraponto ou cagação de regra, deu merda.”

O mesmo “feicibuque” é uma ferramenta na hora de conhecer novos autores. “Vejo alguém aqui e agora, aqui e ali tateando, conheci muita gente boa – prefiro não citar nomes para não subir à cabeça dos envolvidos(as).” Provocado, ele diz que ano passado teve uma excelente surpresa e a confirmação de um talento. “A surpresa é Renato Lemos, autor de Enquanto nossos meninos dormem (Editora Oito e Meio). E Nilo Oliveira confirmou aquilo que, infelizmente, poucos iniciados já sabiam. O cara é um craque. Trata-se de um romance muito acima do ramerrame a que estamos acostumados, cujo título é Armação da piedade (Editora Soul Kitchen Books).” (Estadão Conteúdo)


A VIDA NÃO TEM CURA

De Marcelo Mirisola
Editora 34, 88 págs., R$ 35

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