Jonathan Franzen retorna em grande estilo com romance sobre honestidade e esperança

Um dos mais aclamados escritores contemporâneos fala sobre a possibilidade de que uma solução individual impacte a sociedade

por Sergio de Sá 22/07/2016 13:49

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HECTOR GUERRERO/AFP
O norte-americano Jonathan Franzen: construção realista de mundos completos, mas sem respostas prontas (foto: HECTOR GUERRERO/AFP)

Pureza é um romance sobre a honestidade. E sobre a forma como ela se dá na relação entre as pessoas. O nome pode ser sinceridade. Sendo assim, as mais de 600 páginas do livro do norte-americano Jonathan Franzen são um encontro moral com as possibilidades de viver publicamente em coerência com o próprio pensamento.

Na excelente tradução de Jorio Dauster, o título do livro em português estabelece uma pequena distância linguística com o nome da personagem que une as pontas dos enigmas apresentados ao leitor. Purity, ou simplesmente Pip, é a garota que procura a identidade do pai, que sente todos os cheiros, que nomeia o desafio contemporâneo.

O autor de Tremor, As correções, Liberdade e um romance de estreia (The twenty-seventh city, de 1988) inédito no Brasil é um realista em busca de um mundo completo e compreensível, como ele mesmo assentiu em diversas entrevistas à imprensa brasileira para divulgar Pureza. O segredo de Franzen é que isso não significa termos respostas prontas.

O truque, nem tão novo assim, consiste na construção de personagens difíceis de decifrar. Onde há pureza pode haver sujeira, onde há honestidade pode haver um esquema escuso. A sinceridade confunde-se com ressentimento e mágoa. A generosidade se comporta muitas vezes de modo egoísta. O nome nem sempre diz da pessoa, ou do conceito.

Na ultraconsciência acerca da polissemia das coisas e na necessidade de autorreconhecimento individual é possível ver a conexão da amizade que Jonathan Franzen estabeleceu com outro fenômeno da recente literatura norte-americana, David Foster Wallace (1962-2008). No texto, quase opostos. Na estante, a figura emblemática do russo Dostoiévski.

Franzen “perde” para Wallace no quesito ousadia literária. O autor de Pureza arrisca menos na armação da narrativa, contentando-se com uma construção básica para manter o leitor grudado nas páginas. Também me parece mais ingênuo na observação das bondades e maldades do mundo capitalista no qual vive, quando a moral democrata mostra-se mais óbvia.

Ao mesmo tempo, Franzen soa mais experiente na exposição de intimidade, como se tivesse convivido a fundo com as adversidades da vida a dois, por exemplo. Tendo entrado em polêmicas com feministas, esmerou-se agora nas personagens mulheres para afastar de vez as acusações de misoginia. Elas protagonizam. Eles, na rebarba, ainda que no centro.

O romance gira em torno de Pip, mas ela sai de cena em mais de uma ocasião para a entrada de relatos de formação de outras personagens (ativistas, jornalistas, artistas), em outros tempos, outros cenários. Da Alemanha Oriental à Bolívia, passando por San Francisco e redondezas, Nova York e Denver, o autor costura uma história panorâmica com circularidade perfeita.

Assange e Snowden como inspiração


Nesse emaranhado, que vai e vem no tempo cronológico, há espaço para o protagonismo pontual de outras personagens, com destaque para o alemão Andreas Wolf, fundador de um “projeto” de vazamento de informações na internet, nos moldes de Julian Assange e também Edward Snowden. Wolf é responsável pelos trechos de maior intensidade ética e estética da obra.

Para o leitor, sim, é inevitável a sensação de completude, contrária ao mundo que a própria narrativa deseja colocar em discussão. Como se a forma se comportasse na negação da realidade ou na evidência de que essa realidade precisa ser repensada. O que mais inquieta Franzen é o modo como dispomos as informações. Ou ainda: a maneira como dispomos das informações.

Pureza faz também, e mais especificamente, uma reflexão sobre as possibilidades do jornalismo investigativo. Para o leitor brasileiro, argumentos e contra-argumentos podem soar extemporâneos. Mas acredite na verdade da verossimilhança: há quem se preocupe pra valer com a ética. O que atrapalha, sempre, é o pendor ideológico extremado. O livro tem exemplos de sobra, no seio familiar e na rede de amizades sociais.

Pip é o apelido irônico a ser desatado. Entre a miséria e a riqueza, entre o sexo e o amor, entre a mentira e a verdade, entre a falsidade e a honestidade, entre a orfandade e o afeto, entre a realidade e a ficção. Que o título seja um nome e um conceito já diz da capacidade do romance de investigar a sociedade em rede, globalizada. E mostra como os indivíduos estão implicados.

Onde a liberdade? Como encontrar a pureza? Esta literatura nos encaminha para a esperança de uma solução individual que impacte sobre a sociedade. Saber dizer não. Saber dizer sim. Pip amadurece no embate com o pop à sua volta. Ela planeja, contudo, remontar no coração o “mundo partido” herdado. Pip é o corpo do romance puro e pronto para permanecer.

Sérgio de Sá é professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, autor de A reinvenção do escritor: literatura e mass media (Editora UFMG).

Trecho


“E agora isso se conectava à palavra pureza, que para ela era a palavra mais vergonhosa que existia na língua, porque era também seu primeiro nome. Tinha vergonha de sua carteira de motorista, do PURITY TYLER ao lado da fotografia de cara amarrada, o que transformava numa pequena tortura preencher qualquer ficha. O nome tivera como resultado o contrário daquilo que a mãe tencionara. Como se para escapar de seu peso, Pip tivesse se transformado numa garota má no ensino médio e continuasse sendo uma garota má, desejando o marido de outra mulher... Continuou a beber cerveja até se sentir suficientemente entorpecida para se desculpar e levar um pedaço de pizza para Ramón.”

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