'Inútil a chuva' estreia em BH refletindo sobre a valorização da arte e os vínculos familiares

Armazém Cia de Teatro usa o desaparecimento de um pintor como mote para tratar do tema

por Carolina Braga 21/07/2016 09:42
MAURO KURY/DIVULGAÇÃO
Espetáculo que faz temporada até domingo na capital mineira é concebido como uma sucessão de quadros do artista cujo paradeiro é desconhecido (foto: MAURO KURY/DIVULGAÇÃO)
Na época em que era estudante, em Londrina, o diretor Paulo de Moraes praticava remo. O equilíbrio precário dentro do barquinho foi algo que ele guardou para sempre. O movimento contínuo necessário para ir em frente demandava quase uma relação umbilical entre os atletas. Sem encontro não existe o remo. É preciso estar junto. Inútil a chuva, espetáculo que a Armazém Cia. de Teatro traz a Belo Horizonte, começa com uma família dentro de um daqueles barcos de competição. Em seu 27º espetáculo, a trupe trata da presença do outro. “É o que completa a vida”, afirma Moraes.

Inútil a chuva aborda a ética ao propor reflexões sobre o mercado da arte e as relações familiares. A história é sobre um artista desaparecido cuja obra só alcançou algum valor depois de seu sumiço. Na busca da família por descobrir se ele está morto ou não, a peça usa a ausência para discutir a importância da presença.

Com 110 minutos, o espetáculo foi estruturado como se fossem quadros desse artista. “É como se a arte antecipasse a vida. É isso que interessou para a estrutura narrativa”, diz o diretor. São oito encontros entre os personagens, que compõem oito “pinturas” do protagonista ausente. Lotta (Patrícia Selonk) é a mulher do desaparecido. É ela quem toma a frente do barco remado pelos filhos Slavoj (Leonardo Hinckel), Claude (Tomás Braune) e a caçula Sarah (Andressa Lameu). Um professor de matemática (Marcos Martins) e uma jornalista (Lisa Eiras Fávero) completam o desenho.

Inútil a chuva foi indicado aos Prêmios Shell, APTR e Cesgranrio nas categorias melhor cenografia (Paulo de Moraes e Carla Berri) e iluminação (Maneco Quinderé). Assim como em outras montagens do Armazém, a música tem papel importante. A trilha sonora é de Ricco Viana.

Para desenvolver o protagonista – que não aparece em cena – os dramaturgos pesquisaram uma série de nomes da arte contemporânea conhecidos pela resistência. “Figuras que eram pouco aceitas pelo mercado”, observa o diretor. O artista plástico japonês Ushio Shinohara, radicado nos Estados Unidos, tornou-se uma das referências da peça. Ele é conhecido por pintar utilizando luvas de boxe.

“A pintura do nosso personagem é descrita não como óleo sobre tela, mas ódio sobre tela”, diz Moraes. O Armazém propõe, com essa nova montagem, uma questão já clássica: “Qual o sentido da arte quando a arte não deve nada a ninguém?”.

RENOVAÇÃO É um momento de renovação na carreira da companhia, fundada há 29 anos em Londrina e hoje radicada no Rio de Janeiro. No elenco, aos veteranos Patrícia Selonk e Marcos Martins se juntam os jovens Andressa Lameu, Leonardo Hinckel, Tomás Braune, e Lisa Eiras Fávero.

A peça estreou no ano passado no Rio e fez temporadas em São Paulo e no Recife. O pouco tempo de estrada não permite ao diretor ter o distanciamento necessário para avaliar o quanto Andressa Lameu, Leonardo Hinckel, Tomás Braune – que participaram do processo – trazem de mudança para a lógica de trabalho da companhia.

“Foi bem bacana, porque foi um processo de entrada que partiu de um estágio”, conta o diretor. Em 2015, o Armazém deu oportunidade para 16 jovens atores compartilharem a vivência de grupo. Ao final do processo, três deles foram convidados para participar da montagem. “São atores muito bons e foi um encontro extremamente positivo, porque são pessoas com formações muito diferentes.”

Para Moraes, distinto também foi escrever com o filho Jopa Moraes (João Paulo). O parceiro habitual Maurício Arruda Mendonça tinha compromissos acadêmicos. “Foi uma delícia. É um cara cheio de ideias e essa diferença de geração foi muito interessante para mim. Realmente são outros pensamentos e formas de abordar os afetos do mundo”, afirma.

Aos 21 anos e estudante de ciências sociais, Jopa já havia sinalizado ao pai o interesse pela escrita teatral. O diretor diz que a relação entre pai e filho não interferiu no processo de criação. “Encarei como um cara mais novo do que eu. Ele não me dava trégua.” Para Moraes, é uma dupla que está tentando se conhecer e “está se formando de uma maneira muito amorosa”.

Inútil a chuva
Até domingo. De hoje a sábado; às 21h, domingo, às 19h. Galpão Cine Horto (Rua Pitangui, 3.613, Horto, (31) 3481-5580). R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia).

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