Exposição 'Mondrian e o movimento De Stijl' será aberta nesta quarta-feira no CCBB, em Belo Horizonte

Mostra sobre o artista holandês apresenta o resumo do que foi o movimento De Stijl e como ele repercutiu na história da arte

por Walter Sebastião 20/07/2016 08:00

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REPRODUÇÃO CATÁLOGO MONDRIAN E O MOVIMENTO DE STIJL
Composição de linhas e cor: III (1937) (foto: REPRODUÇÃO CATÁLOGO MONDRIAN E O MOVIMENTO DE STIJL)

Pinturas, cartazes, projetos arquitetônicos, mobiliário etc. para mostrar um momento utópico da modernidade, iniciado em 1917, quando artistas, designers e arquitetos, em repúdio aos horrores da 1ª Guerra Mundial (1914-1918), sonharam com um mundo novo criado com formas simples, lúdicas, coloridas, tornadas instrumento de comunicação universal. Esse é o mote da exposição Mondrian e o movimento De Stijl, que será aberta hoje em Belo Horizonte, no CCBB. A mostra reúne 30 pinturas de Mondrian (1872-1944) e trabalhos de diversos autores criados, exclusivamente, com linhas horizontas e verticais, cores primárias (azul, vermelho e amarelo) e não cores (preto, branco e cinza).

O projeto, conforme assinala Pieter Tjaders, curador da mostra junto com Benno Tempel e Hans Janssen, é mostrar um resumo do que foi o movimento De Stijl (O estilo) e como ele repercutiu na história da arte. “Foi um modo de pensar um mundo novo”, observa, ressaltando tratar-se de um movimento com várias faces e não uma doutrina. O movimento é também uma resposta da arte às crises europeias das primeiras décadas do século 20, que levariam a intelectualidade a questionar o ambiente cultural que gerou conflito entre diversos países, deixando um rastro de milhões de mortos. A multiplicidade de manifestações característica desse movimento é significativa do objetivo de se criar um ambiente (e não apenas objetos de arte) que favorecessem uma nova percepção do mundo, observa o curador.
REPRODUÇÃO CATÁLOGO MONDRIAN E O MOVIMENTO DE STIJL
Pintura nº 4 / Composição nº VIII / Composição 3 (1913), óleo sobre tela (foto: REPRODUÇÃO CATÁLOGO MONDRIAN E O MOVIMENTO DE STIJL)

A proposta dos holandeses carregava diversas referências. Seu resultado é tributário das muitas pesquisas em busca de uma linguagem nova para as artes plásticas desenvolvidas desde o século 19, com atuação de impressionistas e expressionistas e, depois, das vanguardas. Ela se traduz numa adesão à arte abstrata, então já em andamento a partir de 1910. Ecoa, ainda, princípios da Teosofia, filosofia religiosa que parte do princípio de que existem leis imutáveis que regem todo o universo e, em especial, cultua a “força vital” como sua gênese. Disso resulta a defesa da eliminação de tudo que fosse ornamental, supérfluo, para chegar mais próximo do essencial. A turma não defendia um, mas sim “o” estilo, com ardor de profetas.

“O trabalho do De Stijl é resultado de mentes abertas em busca de uma vida nova e não só de arte nova”, explica Pieter Tjaders. “Se os princípios do movimento ainda hoje são aplicados a muitos campos, talvez seja porque criaram uma linguagem que provavelmente seja mesmo universal”, acrescenta.

NEOPLASTICISMO Piet Mondrian não é o único criador importante do De Stijl, mas é certamente um ícone das ideias e propostas do grupo. Além de cofundador do grupo, ele é o autor da Teoria do Neoplasticismo, artigo-manifesto publicado no primeiro número de uma revista criada para difundir a nova estética. Depois de estudos em academia de belas-artes, iniciados em 1892, ele começa, aos poucos, a expor suas obras. Até 1910, o que Mondrian mostra são quase sempre paisagens holandesas, pintadas ao ar livre, em que experimenta vários estilos. “Cultivava o desejo de ser um artista moderno, mas nunca se deixou apressar por nada nem por ninguém. Ele vai caminhar passo a passo na direção do projeto dele”, analisa Tjaders.
REPRODUÇÃO CATÁLOGO MONDRIAN E O MOVIMENTO DE STIJL
Branqueamento de roupa no Gein (1900-1902), óleo sobre tela sobre cartão (foto: REPRODUÇÃO CATÁLOGO MONDRIAN E O MOVIMENTO DE STIJL)

As primeiras obras de Piet Mondrian, explica o curador, remetem a um momento de revalorização da pintura holandesa do século 17, que, inclusive, defendia o uso de cores escuras como os pintores antigos (o que, descobriu-se depois, não era técnica do período, mas simplesmente sujeira das telas). A crítica ao naturalismo na pintura, a partir do surgimento da fotografia (que abriria espaço para outras abordagens) era uma ideia cultivada e discutida. Acrescente-se o convívio com o expressionismo (“Que na Holanda era menos ousado no uso da cor”) e com círculos de arte de vanguarda, seja em Amsterdã (como o grupo Luminista) ou em Paris (que abriga diversas propostas de renovação estética).

Observador atento de toda essa movimentação, incentivado pelas inovações, mas filtrando elementos de interesse pessoal, Mondrian vai simplificando a composição de paisagens “tipicamente holandesas”, compostas por locais planos e com árvores, o que desemboca no jogo de horizontais e verticais. Trabalhos que, também aos poucos, vão eliminando a profundidade e evidenciando a superfície do quadro. Essas são características do trabalho do pintor que vêm acompanhadas da decisão de clarear a palheta, acompanhando caminho proposto por vários movimentos, entre eles o holandês Luminismo. A partir de 1908, Mondrian aceita a cor como expressão independente (do motivo tratado), manifestação do pensamento do artista e não evocação da natureza.

O holandês assimila a desconstrução da imagem praticada pelos cubistas, depois de ver exposição de Picasso na Holanda, e de viagem a Paris (onde fica entre 1911 e 14), para conhecer a novidade, vai definir a organização do espaço com verticais e horizontais. O artista abandona, ainda, títulos evocativos e passa a chamar os quadros de composição ou apenas pintura. São procedimentos de depuração, aponta o curador, “de forma a ficar cada vez mais direta a comunicação com o espectador” e que vão evidenciar os jogos, cada vez mais radicais, entre horizontais e verticais, além da limpeza da cor, até levar, em 1917, à primeira obra totalmente abstrata.

O aprofundamento nesse caminho dá origem às pinturas criadas com quadrados e linhas pretas, a partir de 1921. “Se há diálogo com as novidades que estão ocorrendo em seu tempo, Mondrian continua a ser Mondrian em todos os momentos. Produz quadros que, mesmo quando o público tenha de procurar o motivo deles ou observar apenas jogos de linhas e forças plásticas, têm força para convencer o espectador”, avalia Tjaders, avisando que, independentemente da fase ou do momento do artista, a mostra está repleta de boas pinturas.

MONDRIAN E O MOVIMENTO DE STIJL

CCBB. Praça da Liberdade, 450, Funcionários, (31) 3431-9400. De quarta a segunda-feira, das 9h às 21h. Até 26 de setembro.

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