Sob direção de Márcia Haydé, 'Zorba, o grego' chega a BH nesta terça

Aos 79 anos, a brasileiracontinua encantando o mundo ao dirigir a versão chilena do espetáculo

por Mariana Peixoto 18/07/2016 08:22

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Patrício Melo / Divulação
Espetáculo da companhia Ballet de Santiago estará no Palácio das Artes, nesta terça-feira (foto: Patrício Melo / Divulação )
“Dança não é vocação, não é carreira. Para viver, tenho que dançar.”

É isso que Márcia Haydée tem feito por 76 anos. Com apenas 3, a niteroiense, numa viagem de férias com os avós para São Lourenço, no Sul de Minas, saiu dançando ao ouvir a música que tocava no rádio. É a primeira lembrança que a bailarina, coreógrafa e diretora tem da dança. O primeiro espetáculo, no jardim de infância, veio três anos mais tarde. E a vontade de ser uma grande bailarina existe desde sempre. E ela foi. Ou melhor, ainda é – hoje, aos 79.

Entre o público leigo, o nome de Márcia Haydée não é tão conhecido como o de Ana Botafogo. Por uma simples razão: sua carreira é totalmente internacional. Uma das maiores personalidades mundiais da dança, a brasileira vive na Europa desde a juventude. Há 12 anos com um posto no Chile – é diretora criativa do Ballet de Santiago –, onde passa oito meses por ano, considera a Alemanha sua casa. Mais precisamente, um chalé nos Alpes, a uma hora de Stuttgart, cidade que a recebeu em 1961.

Nessas mais de cinco décadas longe do Brasil, Márcia sempre deu um jeito de voltar. Quando a mãe, sua maior incentivadora, ainda vivia, ela passava pelo menos dois meses no país. Também se apresentou bastante por aqui, até que, no ano passado, realizou, como coreógrafa, seu primeiro trabalho brasileiro: criou O sonho de dom Quixote para a São Paulo Companhia de Dança.

Márcia Haydée está de volta agora, acompanhando a temporada de Zorba, o grego que o Ballet de Santiago faz no país. Amanhã, a mais importante companhia chilena de dança se apresenta no Palácio das Artes. Além de Márcia, a companhia, com 55 bailarinos, traz três brasileiras: a primeira bailarina Andreza Randisek, Michele Bittencourt e Lara Gonçalves Costa, esta do corpo de baile.

Há quatro anos, Márcia montou Zorba, o grego em Santiago. “Quando estreou, foi o maior sucesso que houve num teatro no Chile. O público de lá não é efusivo como o brasileiro, é mais conservador, calmo”, relembra. Porém, a montagem da coreografia de Lorca Massine – com música de Mikis Theodorakis – provocou reações intensas.

Ballet de Santiago / DIvulgação
"Os coreógrafos criam papeis para a minha idade" (foto: Ballet de Santiago / DIvulgação )
O espetáculo conta a história do aventureiro imortalizado no cinema por Anthony Quinn. O longa Zorba, o grego, dirigido por Mihalis Kakogiannis, ganhou três Oscars em 1965. Lorca Massine criou a coreografia em 1988. Inspirou-se no livro homônimo de Nikos Kazantzakis, adaptado para o cinema. Em 1994, essa obra foi apresentada pela primeira vez no Brasil pelo Ballet da Ópera de Varsóvia.

Márcia Haydée não mexeu em nada da coreografia original. O próprio Massine foi até Santiago conferir a nova montagem. “A maneira como ele conseguiu misturar as diversas danças, com muita referência oriental, fez com que Zorba se tornasse um dos balés mais interessantes que existem. No final, durante a sirtaki (dança popular criada para o filme), as pessoas querem subir no palco”, comenta.

A temporada chilena de Márcia já tem data para terminar – o contrato com o Ballet de Santiago vai até o fim de 2017. “Chegou o momento de deixar a companhia. Vou fazer outra coisa”, comenta. Quando sair, Márcia já terá chegado aos 80. O que não faz tanta diferença assim, pois a dança, para ela, não tem idade.

Diariamente, faz ioga – atividade que não lhe chegou através da moda. “Pratico há 18 anos e criei meu próprio programa, que misturo com pilates. Tenho que fazer todos os dias para o corpo continuar se movimentando. Às vezes, aparece um problema nas costas, uma dor no joelho, mas continuo vivendo e gozando a vida”, conta.

Ela se aprofundou na prática na década de 1990. “Quando parei de dançar no Balé de Stuttgart, estava casada com um mestre de ioga e meditação. Ele me levou para conhecer a Índia e, naquele período, fiz muitas coisas sem nada a ver com o palco”, revela.

Existe um projeto para o futuro que, se tudo der certo, deve ser viabilizado em 2017 justamente para comemorar os 80 anos da bailarina. Estão incluídos na comemoração um documentário, um livro e uma exposição. E dançar, sempre.

“Os coreógrafos criam papéis para a idade que tenho”, comenta ela, que, no palco, atua mais na seara do teatro-dança. “Sou como uma atriz no meio dos bailarinos”, explica Márcia. Por ora, ela prefere fazer poucos planos. “Quando criança, disse para minha mãe que queria ser uma grande bailarina, mas não pensei que iria para a Europa. Não planejei a vida que tive, as coisas foram acontecendo e segui a direção”, finaliza.


Eles criaram para Márcia
J. Cranko Schule/reprodução
(foto: J. Cranko Schule/reprodução)
John Cranko

Em 1961, Márcia Haydée participou de uma audição para o Balé de Stuttgart, na Alemanha. O então diretor, o sul-africano John Cranko (foto), logo a fez primeira-bailarina. Foram 13 anos na função. Ela dançou espetáculos que marcaram época, como Romeu e Julieta, A megera domada e Carmem. Em 1976, três anos depois da morte de Cranko (1927-1973), ela assumiu a direção da companhia. Foi ali que conheceu seu parceiro de palco (por 36 anos) e marido (por 16), o norte-americano Richard Cragun.


 

 

 

 

AP
(foto: AP)
John Neumeier

Se John Cranko formou Márcia Haydée, coreógrafos tão importantes quanto ele criaram para ela, já bailarina consagrada. No Ballet de Stuttgart, Márcia dançou o papel principal de A dama das camélias, coreografia do norte-americano John Neumeier (foto), de 74 anos, que a dirigiu no longa-metragem homônimo. Outra criação dele foi Blanche DuBois, de Um bonde chamado desejo.


 

 

 

 

JOHN SCHULTS/REUTERS
(foto: JOHN SCHULTS/REUTERS)
Maurice Béjart

O coreógrafo francês Maurice Béjart (1927-2007,foto) criou uma série de papéis para a brasileira – entre eles, Divine (1981), sobre Greta Garbo, e Isadora II (1983), sobre Isadora Duncan. Márcia comenta que os papéis são de acordo com sua idade. Ela foi também Madre Teresa de Calcutá numa proposta mais voltada para dança-teatro, em Madre Teresa e as crianças do mundo (2002).

 

 

 

 

ZORBA, O GREGO
Com Ballet de Santiago. Amanhã, às 20h. Palácio das Artes. Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro, (31) 3236-7400. Setor 1: R$ 200 (inteira) e R$ 100 (meia-entrada). Setor 2: R$ 160 e R$ 80 (meia). Balcão 1: R$ 120 e R$ 60 (meia). Balcão 2: R$ 50 e R$ 25 (meia).

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