'O guia definitivo do mochileiro das galáxias' reúne os cinco livros em um só

Edição especial reúne todas as aventuras de Arthur Dent, que ainda despertam paixões e mobilizam fãs de todas as idades

por Álvaro Fraga 13/07/2016 08:00

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Touchstone Pictures / Divulgação
Os atores Sam Rockwell, Zooey Deschannel e Mos Fed contracenam com o robô Marvin na versão de Hollywood (foto: Touchstone Pictures / Divulgação)
São 672 páginas de pura literatura pop, quantidade suficiente para exigir fidelidade extra do leitor. Além disso, não se trata de obra inédita. É a reedição, em volume único, dos cinco livros que narram a saga de Arthur Dent, um inglês trintão, arredio, com pouquíssima sorte, arrebatado inesperadamente por um amigo extraterrestre que o salva da destruição da Terra e o leva para aventuras inimagináveis e inesquecíveis pelo espaço em O guia do mochileiro das galáxias.

Então, por que O guia definitivo do mochileiro das galáxias, lançamento em capa dura da Editora Arqueiro, ainda é capaz de despertar a paixão de fãs, mesmo depois da venda de 15 milhões de exemplares das edições avulsas que narram as viagens de Dent pelos mais distantes destinos do espaço? Simplesmente porque, como respondeu uma nerd de carteirinha: “Nossa, deve ser maravilhoso terminar um livro e começar o outro na próxima página”.

E este é um ótimo argumento. Nos cinco livros da série – O guia do mochileiro das galáxias, O restaurante no fim do mundo, A vida, o universo e tudo mais, Até mais e obrigado pelos peixes! e Praticamente inofensiva –, Adams transformou Dent em um dos mais cultuados protagonistas da ficção científica do século 20. Ele está no mesmo patamar que o contrabandista e aventureiro Han Solo, de Star wars, o vulcaniano Spock, de Star trek, ou Frodo Baggins, de O senhor dos anéis.

Herói

A sedução de Dent reside justamente no fato de ele ser um herói improvável, que vive situações absurdas como se estivesse sentado na cozinha de sua casa tomando uma xícara de chá, por sinal, sua bebida preferida. Ao mesmo tempo, se relaciona com seres tão ou mais improváveis que ele, como o amigo alienígena Ford Prefect, que passou 15 anos na Terra, disfarçado como ator sem trabalho, à espera de uma nave que o levasse do nosso planeta, ou o robô Marvin, tão humano que enfrenta constantes crises de depressão, sem contar a imensurável quantidade de tipos bizarros que desfilam ao longo da obra.

A habilidade do autor em dar amplitude intergaláctica a situações cotidianas, com um misto de criatividade, humor e filosofia de vida, é outro trunfo da obra. Em O restaurante do fim do universo, por exemplo, Arthur e quatro amigos, a bordo da nave Coração de Ouro, viajam pelo espaço simplesmente à procura de um lugar onde possam comer, como se fosse um grupo de pessoas que saísse para jantar depois do expediente na firma. Claro que as consequências dessa viagem nada têm de prosaicas.

Para quem conhece a série de Douglas Adams, O guia definitivo do mochileiro das galáxias é uma espécie de troféu de graduação nerd, para ser relido com vagar e, depois, guardado na estante, de preferência ao lado de uma miniatura da Falcon Millenium, das obras de J .R. R. Tolkien, dos DVDs de Game of thrones, de um cubo mágico ou de um cartucho antigo de Mario Bross.

Para quem ainda não folheou as páginas da “trilogia de cinco em um único volume”, como diz a bem-humorada capa da recém-lançada edição da Arqueiro, a recomendação é para que deixe de lado o preconceito e se divirta com as aventuras de Dent, Marvin, Prefect, Trillian e Zaphod Beeblebrox. É uma leitura agradável, voltada, obviamente, para o público jovem, mas que não deixa de ser atraente também para as demais gerações. Afinal de contas, atire a primeira pedra quem nunca foi nerd.

 

AFP
O Autor da série, originalmente criada para a rádio BBC, em 1978 (foto: AFP)
Sobre nerds, Douglas Adams e a toalha

O trecho que melhor define O guia do mochileiro das galáxias como referência da cultura pop é o que descreve a importância da toalha encontrada na mochila de Ford Prefect, o extraterrestre que salvou Dent. Tanto que quando Douglas Adams morreu, em 11 de maio de 2001, os fãs da obra decidiram homenageá-lo e escolheram 25 de maio como o Dia da Toalha, data em que os nerds mais convictos costumam levar toalhas para a escola ou para o trabalho ou mesmo pendurar uma na janela ou na varanda de casa.

O texto que inspirou a homenagem está no capítulo 3 do livro

"A toalha é um dos objetos mais úteis para um mochileiro interestelar. Em parte devido ao seu valor prático: você pode usar a toalha como agasalho quando atravessar as frias luas de Beta de Jagla; pode deitar-se sobre ela nas reluzentes praias de areia marmórea de Santragino V, respirando os inebriantes vapores marítimos; você pode dormir debaixo dela sob as estrelas que brilham avermelhadas no mundo desértico de Kabrafoon; pode usá-la como vela para descer numa minijangada as águas lentas e pesadas do rio Moth; pode umedecê-la e utilizá-la para lutar em um combate corpo a corpo; enrolá-la em torno da cabeça para proteger-se de emanações tóxicas ou para evitar o olhar da Terrível Besta Voraz de Traal (um animal estonteantemente burro, que acha que, se você não pode vê-lo, ele também não pode ver você - estúpido feito uma anta, mas muito, muito voraz); você pode agitar a toalha em situações de emergência para pedir socorro; e naturalmente pode usá-la para enxugar-se com ela se ainda estiver razoavelmente limpa.

Porém, o mais importante é o imenso valor psicológico da toalha. Por algum motivo, quando um estrito (isto é, um não mochileiro) descobre que um mochileiro tem uma toalha, ele automaticamente conclui que ele tem também escova de dentes, esponja, sabonete, lata de biscoitos, garrafinha de aguardente, bússola, mapa, barbante, repelente, capa de chuva, traje espacial, etc., etc. Além disso, o estrito terá prazer em emprestar ao mochileiro qualquer um desses objetos, ou muitos outros que o mochileiro por acaso tenha 'acidentalmente perdido'. O que o estrito vai pensar é que, se um sujeito é capaz de rodar por toda a galáxia, acampar, pedir carona, lutar contra terríveis obstáculos, dar a volta por cima e ainda assim saber onde está a sua toalha, esse sujeito claramente merece respeito. Daí a expressão que entrou na gíria dos mochileiros, exemplificada na seguinte frase: 'vem cá, você sancha essa cara dupal, o Ford Prefect? Tai um mingo que sabe onde guarda a toalha.' (Sancha: conhecer, estar ciente de, encontrar, ter relações sexuais com; dupal: cara muito incrível; mingo: cara realmente muito incrível).”

 

 

O guia definitivo do mochileiro das galáxias

. De Douglas Adams
. Editora Arqueiro
. 672 págs.
. R$ 69,90

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