Bill Clegg e Irvine Welsh lançam livros no Brasil sobre perdas, lutos e culto à imagem

Bill Clegg passou do papel de agente literário ao de autor ao escrever um livro de memórias. Agora, ele volta com o primeiro romance, uma ficção sobre perdas e lutos

por Nahima Maciel 05/07/2016 09:05

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Brigitte Lacombe/Divulgação
Brigitte Lacombe/Divulgação (foto: Brigitte Lacombe/Divulgação)
Luto, perda e vergonha são sentimentos com os quais Bill Clegg já teve bastante intimidade. No início dos anos 2000, o escritor americano mergulhou em uma espiral de drogas e depressão que o levou a largar o trabalho de agente literário bem-sucedido e ser internado em um centro de reabilitação. Anos depois, ele voltaria ao mercado literário e escreveria um livro sobre a própria experiência. Com Retrato de um viciado quando jovem (2010) e Noventa dias (2013), Clegg narrou a própria experiência, o vício em crack e cocaína e a luta para sair do poço. Agora, foi a vez de estrear na ficção. Com Você já teve uma família?, o americano entrou para a lista dos finalistas do Man Booker Prize e esteve na Flip em uma mesa com Irvine Welsh, autor de Trainspotting.


Você já teve uma família? narra uma história trágica, mas não há nada de dramático na escrita do autor. Clegg está mais para objetivo e, até, irônico. Há algo de seco e contido na maneira como conta a história de June, a sobrevivente de um incêndio no qual morrem a filha e seu noivo, o genro e o ex-marido. A reconstrução – ou reinvenção – de uma vida, o luto e a perda fazem parte do caminho que a personagem deve percorrer para se reerguer.


Ao redor, está um conjunto de personagens que ajudam a contar a história de June e dos que morreram. Clegg dá voz a todos em capítulos cujos títulos levam seus nomes. Cada um carrega também um universo de sentimentos e vivências essenciais para a memória de June e para sua reconstrução. Há, como o autor admite, uma certa conexão com vários aspectos de sua história pessoal, narrada nos dois livros de memória publicados há alguns anos. “No primeiro livro, falo do impacto da infância na vida adulta e, no segundo, exploro como a comunidade pode moldar você, porque havia uma comunidade de reabilitação com pessoas que queriam me salvar”, explica. “Nos dois livros, há uma exploração da narrativa de alguém que precisa deixar a família original e encontrar uma nova família, uma outra comunidade para se reconstruir. Há uma conexão também nas questões relacionadas ao perdão e às perdas. Todos os livros têm isso em comum.”
June é uma senhora rica que, anos depois de deixar o marido, começa a namorar Luke, um ex-presidiário, filho bastardo de Lydia, figura desprezada pela família e pela cidade por ter pulado a cerca e engravidado de um negro. Após enterrar a filha e os agregados, June parte em busca de um futuro não muito desejado. Pelo caminho, encontra os personagens que serão peões importantes no tabuleiro sobre o qual vai reorganizar a vida e as memórias.


O mote para Você já teve uma família? veio de conversas entre Clegg e o irmão, funcionário de uma empresa de encanamento. O autor não acreditou quando soube que era comum pessoas deixarem o gás ligado em suas casas de férias e, ao voltar para o verão, acenderem um fósforo e explodirem tudo. A partir daí, começou a imaginar os personagens. O exercício de lembrar da própria infância no interior dos Estados Unidos e de escrever sobre os anos de vício também contribuiu para construir o universo de June.


Você já teve uma família? é o primeiro romance de Clegg. Escrever as memórias e publicá-las foi um passo para saber como é estar do outro lado da mesa em uma agência de talentos literários. O escritor começou a rascunhar os dois primeiros livros como se fossem apenas um arquivo pessoal, uma forma de organizar as lembranças. Relutou muito em aceitar que ali havia um livro. “Quando o livro foi publicado e começaram todas as discussões, foi o momento em que me senti mais vulnerável. Mas foi de um modo positivo porque agora consigo entender melhor os meus autores quando são publicados”, conta. O primeiro romance foi uma segunda etapa. “Às vezes, penso que escrever um romance foi a melhor coisa que fiz para meu trabalho como agente”, garante.

 

Você já teve
uma família?
De Bill Clegg.
Tradução: Rubens Figueiredo
Cia. das Letras,
260 páginas. R$ 44,90

 

 

entrevista

IRVINE WELSH
ESCRITOR E ROTEIRISTA ESCOCÊS

 

Sátira sobre o culto à própria imagem

 

A barra sempre pesou na escrita do escocês Irvine Welsh. Basta acompanhar a célebre galeria de desajustados formada por Spud, Sick Boy, Renton e Begbie, eternizada no romance Trainspotting (1993), que lhe rendeu o status de grande nome da literatura britânica moderna. Welsh foi um dos destaques da 19ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), ocorrida na cidade fluminense, onde dividiu a mesa com o americano Bill Clegg. Welsh abordou seu mais recente romance publicado no país, A vida sexual das gêmeas siamesas (Rocco). Se, em Trainspotting, ele chafurdou o mundo dos guetos, dos pubs e das drogas, agora investe contra a praia e o culto ao corpo perfeito. O romance se passa em Miami, onde uma personal trainer interfere em uma tentativa de assassinato, ao imobilizar um homem armado. Como o ato foi registrado por uma câmera de celular, Lucy Brennan logo se transforma em uma sensação midiática, atrás apenas de gêmeas siamesas de 15 anos do Arkansas que também colocaram a nação em suspenso com seu dilema moral: o que fazer quando uma quer sair enquanto a outra prefere ficar em casa? Bem humorado, Welsh, que vive hoje nos EUA, fala sobre sua sátira ainda mais ácida e impiedosa a respeito de uma sociedade obcecada por sua própria imagem.

 

Esse seu novo livro teve uma curiosa recepção nos EUA, onde seu estilo foi comparado a Bret Easton Ellis e Chuck Palahniuk, dois autores que também tratam dos males da sociedade moderna do ponto de vista da dor. O que achou disso?
Achei engraçado. Bret e Chuck apareceram mais ou menos na mesma época em que estreei, ou seja, há uma sensibilidade compartilhada para os mesmos temas, ainda que eu vivesse na Escócia enquanto eles estavam na América. Acho que a relação entre a gente vem do fato de O psicopata americano, de Bret, e Clube da luta, de Chuck, sejam talvez os últimos dois grandes romances americanos dos anos recentes. Claro que surgiram novos e bons títulos depois, mas nada que fosse tão inovador. Como já disse antes, eles apontaram para novos caminhos da mesma forma que John Updike fizera nos anos 1980.

Também li que seu interesse em escrever esse romance foi motivado pela dicotomia que temos em nossa sociedade entre esporte e arte. Como nasceu essa curiosidade?
Para mim, é uma horrível dicotomia, pois nos obriga sempre (nos EUA, ao menos) a ser um grande atleta idiotizado ou um artista metido a besta. Foi o que tentei fazer ao criar Lucy Brennan e Lena Sorensen, a mulher que filma a atitude de valentia de Lucy. Por meio das duas, vistas em perspectiva, tentei moldar o perfil mais completo de uma pessoa moderna – pelo menos, alguém com o perfil médio apresentado pelos programas de televisão.

Lucy é o tipo de mulher vigorosa, decidida, no esplendor de sua forma física, enquanto Lena é uma artista vulnerável, tímida, ligeiramente gorda. Como você relaciona essas garotas a questões como gênero e feminismo?
São dois exemplos de feminismo: Lucy é mais independente, enquanto Lena está mais para o tradicional. Para mim, representam duas faces de uma mesma moeda, ou seja, complementares.

Junk food e viciados em exercícios físicos – é assim que você vê os Estados Unidos?
De uma certa forma, sim. Mas não apenas a América – nossa sociedade de consumo como um todo cria pessoas com um comportamento obsessivo compulsivo que não lhes deixa com liberdade de ação. Assim, se você é gordo porque come muita junk food, você não vai parar de comer isso para emagrecer - vai começar a tomar pílulas que supostamente vão te deixar mais magro. É assim que nossas mentes têm sido programadas. (Ubiratan Brasil/Estadão Conteúdo)

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