Chega ao Brasil 'Vozes de Tchernóbil', livro da vencedora do Nobel Svetlana Aleksiévitch

Na obra, a autora exerce sua técnica em que "o conteúdo rompe a forma" para traçar um relato tocante das vítimas da catástrofe que devastou gerações

por Nahima Maciel 04/07/2016 08:27

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Walter Craveiro/Divulgação
Svetlana Aleksiévitch durante a Flip (foto: Walter Craveiro/Divulgação)
Quando as duas explosões no reator da usina nuclear de Chernobyl jogaram no ar uma nuvem de compostos radiativos, na madrugada de 26 de abril de 1986, os soviéticos começaram a descobrir que os “átomos da paz” eram capazes de instaurar uma guerra invisível. Ninguém estava preparado para lidar com o fato de que as florestas permaneciam intactas, as casas em pé e o sol brilhando, enquanto o mundo se esvaziava.

A quantidade de radiação chegou a ser 500 vezes maior que o mínimo suportado pelo corpo humano. No entanto, a desorganização atômica provocada pela explosão era invisível. Os soviéticos haviam sido preparados, durante décadas, para enfrentar um inimigo armado com tanques e bombas. E podiam até ser atômicas. Sabiam que precisavam correr para abrigos, se jogar contra o solo podia ajudar a evitar a onda de calor da explosão nuclear, seria necessário revidar e, para isso, precisavam (e tinham) coragem. Mas ninguém sabia o que fazer diante de uma ameaça silenciosa proporcionalmente mais letal que um conflito bélico. E foi assim que Chernobyl, a maior catástrofe nuclear da Europa no século 20, se tornou também o maior mistério a ser enfrentado pelo povo soviético.

Sobre esse mistério, a jornalista Svetlana Aleksiévitch preferiu se calar. Foi aos sobreviventes que ela deu ouvidos em Vozes de Tchernóbil – A história oral do desastre nuclear. Esse livro projetou o nome de Svetlana porque é, provavelmente, o que mais ganha a identificação do público internacional. O acidente com a central nuclear teve repercussão no mundo inteiro. A nuvem radioativa viajou pela Europa e chegou à África, à Ásia e aos Estados Unidos. Dos 2,1 milhões atingidos pela tragédia, 700 mil eram crianças e quem cresceu nas décadas de 1980 e 1990 lembra bem das cabecinhas carecas dos meninos e meninas de Chernobyl estampadas em jornais e programas de televisão. O número de doenças oncológicas na região passou de 82 para 6 mil a cada 100 mil habitantes.

No livro, os relatos aprofundam uma história que o Ocidente nunca chegou a conhecer em detalhes e expõe o custo humano associado ao perigo nuclear, seja ele o de uma bomba ou o da produção de energia. A Guerra Fria vivia seus últimos dias e uma abertura para suas fragilidades não era exatamente um desejo do povo soviético. É, aliás, a condição soviética um dos pontos mais marcantes dos relatos. Quando o reator explodiu, a crença na tecnologia e na superioridade do país era tanta que muitos tiveram dificuldade em aceitar o fato como uma tragédia.

 

O governo foi negligente — Mikhail Gorbachev, que em seguida tocaria a Perestroika, levou nove dias para se pronunciar sobre ocorrido —, equipamentos de segurança não foram distribuídos para não semear o pânico e as medidas profiláticas para evitar o contágio com a radiação foram ignoradas pelo mesmo motivo. As evacuações das áreas contaminadas levaram 36 horas para ter início, a população não entendia o que se passava e muitos homens convocados pela cúpula militar foram enviados à região sem saber para onde estavam indo. Quem trabalhou ou viveu num raio de 30km da usina atômica ficou conhecido como “homem de Chernobyl” e, caso tenha sobrevivido, se transformou num estigma ambulante. Colhidos durante a década que se seguiu ao acidente e publicados em 1997, os relatos insistem em uma pergunta sem resposta: quem foi o culpado.?

No depoimento das mulheres — uma característica da literatura de Svetlana — e das crianças, estão os momentos mais tocantes do livro. No discurso feminino, o futuro é um abismo sem luz. Um desastre atômico imprime o medo e o selo da morte no que há de mais significativo para a vida: o nascimento. “O tempo mordeu o próprio rabo, o início e o fim se tocaram”, reflete Svetlana. Ter filhos, para as gerações pós-Chernobyl, é uma temeridade. Além disso, as crianças pararam de sorrir. Começaram a adoecer, foram proibidas de brincar na grama ou com animais por causa da radiação e passaram a imaginar e especular como morreriam. Também não entendiam a necessidade de matar gatos e cachorros quando caçadores foram convocados para eliminar os bichos. Os animais domésticos viraram pequenas bombas a serem desativadas.

Chernobyl faz parte da história da própria Svetlana e seu relato permeia o livro. Nascida em maio de 1948, filha de um bielorrusso e uma ucraniana, ela acompanhou algumas guerras, frutos dos enfrentamentos entre o bloco comunista e capitalista. Esteve no Afeganistão em 1989 para voltar para casa desiludida com o ideal comunista no qual o pai a criara e que aprendera a venerar. No fim do livro, uma reprodução do discurso realizado na academia sueca durante a cerimônia de outorga do Nobel revela trechos do diário da escritora. Vozes de Tchernóbil, assim como A guerra não tem rosto de mulher, outro volume seu que a Companhia das Letras lança no Brasil, são livros incomuns. Não há ali nenhum exercício literário. Como a própria autora explica, “o conteúdo rompe a forma”. O que a interessa é o que ela chama de pequeno grande homem, aquele que conta a própria história e a transforma em grande história. “Frequentemente me perguntam por que escrevo sempre sobre temas trágicos. Porque é assim que vivemos. Mesmo que hoje vivamos em países diferentes, o homem vermelho está em toda parte”, escreve.

Vozes de Tchernóbil – A história oral do desastre nuclear
• De Svetlana Aleksiévitch. Tradução: Sônia Branco.
• Companhia das Letras,  384 páginas.
• Preço em torno de R$ 40

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