Em edição política, Flip encerra seu 14º ano em clima mais tranquilo que anos anteriores

Festa Literária de Paraty vê crescer a programação paralela e também o público que prefere seguir os debates da Tenda dos Autores pelo telão gratuito

por Carolina Braga 04/07/2016 08:11

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Walter Craveiro/Divulgação
Público assiste pelo telão conferência da Flip (foto: Walter Craveiro/Divulgação)
Paraty -
Da moça que vende artesanato ao motorista de táxi, quem é de Paraty não tem a menor dúvida de que esta 14ª edição da Flip não foi como as anteriores. Em outros anos, era impossível caminhar com folga no calçamento de pedra. Desta vez, o fluxo se mostrou bem mais tranquilo. Os organizadores da Festa Literária Internacional de Paraty, encerrada ontem, tiveram a mesma impressão. Mas não enxergam isso como um problema.

De acordo com o diretor-geral Mauro Munhoz, a estimativa preliminar é de que cerca de 23,2 mil pessoas circularam pelas atividades oficiais da Flip, nos três primeiros dias (a abertura foi no último dia 29/6). No ano passado, foram 21,9 mil. O curioso é que o número de ingressos vendidos para a Tenda dos Autores diminuiu. Uma queda geral de cerca de mil entradas. “O público está comprando a ideia do telão”, constata o curador Paulo Werneck. Instalado na área externa, ao lado da tenda principal, por ali os interessados acompanham todas as mesas, gratuitamente. Os ingressos custavam R$ 50.

Foi uma edição atravessada por política. Os organizadores foram levados a se posicionar sobre a ausência de escritoras negras na programação. Pediram desculpas e prometeram um diálogo mais amplo. Manifestações sobre o cenário nacional e internacional ocuparam involuntariamente os palcos. As ruas também. Moradores de Paraty protestaram contra a especulação imobiliária, a violência da região. Duas manifestações circularam pela cidade. Uma delas, inclusive, chegou à Tenda dos Autores no momento em que a Nobel Svetlana Alexijevich, convidada mais ilustre desta edição, estava no palco.

Na programação oficial, o evento, que se firma como o mais importante do calendário literário brasileiro, já encontrou seu tamanho ideal. É no crescimento da chamada off-Flip que está a novidade. A programação paralela se expande a cada ano, fica mais interessante e transforma o pacote da Festa em algo humanamente impossível de ser acompanhado. É democrático, não se pode negar.

Ao mesmo tempo em que a Tenda dos Autores recebe seus convidados nacionais e internacionais pelo menos outros dez espaços da cidade oferecem debates de nível equivalente. Na sexta-feira, a Flip chegou a ter, ao todo, 22 atrações entre 10h e 22h. “Ainda não fizemos essa conta, mas deve ter mais de 150 autores aqui”, diz o curador.

O escritor angolano José Eduardo Agualusa, o brasileiro Ruy Castro, a espanhola Pilar Del Río, o ator Matheus Nachtergaele, a escritora mineira Conceição Evaristo são alguns dos nomes que estiveram exclusivamente na off-Flip. As chamadas “casas parceiras” tiveram curadoria de instituições como Sesc, Itaú Cultural, British Council e outros.

Tendo a poeta Ana Cristina César como homenageada da Festa, a programação oficial fez as devidas honras. O encontro entre o biógrafo de Clarice Lispector, Benjamin Moser, e Heloísa Buarque de Hollanda, madrinha de Ana C., foi um dos pontos altos. Mais do que a abertura com a participação do poeta Armando Freitas e o fotógrafo Walter Carvalho. Mas a Flip não ficou refém da poesia da carioca. O que foi positivo.

O próprio Benjamin Moser, que se considera um brasilianista, dividiu a mesa com Kenneth Maxwell sobre diversos aspectos da nossa cultura, alguns deles incômodos. “Se os brasileiros tivessem dito o que eles falaram não sei qual seria a reação”, comenta Werneck. O mesmo vale para o encontro com o norueguês Karl Ove Knausgard e o brasileiro Leonardo Fróes.

A polêmica desta edição ficou por conta da mesa Sexografias, com a escritora paulistana Juliana Frank e a jornalista peruana Gabriela Wiener. Foi uma bagunça que o mediador, o jornalista Daniel Benevides, não conseguiu domar. “Na minha opinião, não funcionou”, sintetiza Mauro Munhoz. “Não foi a primeira vez que vimos uma mesa sui generis. Faz parte do risco que a gente corre. Não é nenhum trauma”, afirma Paulo Werneck.

“Desenvolvi o hábito de ouvir”


Discrição é uma marca da escritora bielorrussa Svetlana Alexijevich. Quando ela viu o tamanho da fila que a aguardava após a conversa com o público na Flip, arregalou os pequenos olhos azuis. Horas de autógrafos. A ganhadora do prêmio Nobel de literatura no ano passado era a atração mais esperada desta edição. Foi um encontro bonito.

Svetlana Alexijevich, de 68 anos, fala russo. Por isso a Flip abriu uma exceção e transmitiu a mesa para o público que fica do lado de fora da Tenda dos Autores com o áudio da tradução simultânea e não o original, como é o padrão do evento. De acordo com a organização, eram cerca de 1,8 mil pessoas. Quem estava do lado de dentro podia ouvir a reação conjunta da imensa plateia exterior a cada conclusão da escritora.

Há mais de 30 anos Svetlana Alexijevich escreve sobre guerras e tragédias, como as consequências humanas do acidente nuclear em Chernobyl. Tem cinco livros lançados. Há nove meses, quando foi agraciada com o mais importante prêmio das letras, nenhum deles havia sido publicado no Brasil. A guerra não tem rosto de mulher (1983) e Vozes de Tchernóbil (1997) foram recentemente lançados em português pela editora Cia das Letras.

A característica da literatura de Svetlana é a oralidade. Atua no terreno da não ficção com uma narrativa que também se distancia do jornalismo tradicional. Ela entrevista centenas de pessoas sobre um tema específico, em geral duro. Depois, organiza as entrevistas como monólogos. Diz que recolhe sentimentos. “Desenvolvi o hábito de ouvir. Não são entrevistas. São conversas sobre a vida”, sintetiza.

Para ela, o grande desafio da atualidade é o reencontro do homem com sua essência. “Precisamos achar o que o homem tem de humano dentro de si e não perder essas qualidades”, afirma. Svetlana contou com calma e riqueza de detalhes as lembranças que tem dos personagens que encontrou ao longo da feitura dos livros. São casos fortes de pessoas que perdem a vida.

Vozes de Tchernóbil foi lançado em 1997, antes, portanto, do acidente nuclear em Fukushima, no Japão. Quando o livro sobre a tragédia em Chernobyl chegou ao Oriente, os japoneses disseram que esse tipo de coisa não poderia acontecer com eles, pois são muito precavidos em suas construções. Com essa história, Svetlana chama atenção para o quanto o homem não consegue aprender com os próprios erros.

“A humanidade tomou um lugar errado dentro da natureza. Está errado usar a força contra a natureza”, disse, também em referência ao recente acidente ambiental brasileiro, o rompimento da barragem da Samarco em Mariana. “O mundo precisa de uma nova filosofia de vida. O progresso vai nos levar à autodestruição.”

A bielorussa já foi chamada de escritora-catástrofe e diz que esgotou o tema das guerras e tragédias. Seu próximo livro será sobre o amor. “É a única saída. Acredito que o mundo não será salvo pelo homem racional, mas aquele com uma visão mais ampla, que contemple outros sentidos.”

Durante 11 anos a escritora viveu longe de seu país, na condição de exilada política, pelos questionamentos que sempre fez ao poder vigente na antiga União Soviética. Contou que, ao longo da vida, precisou se apoiar no próprio talento narrativo para se impor profissionalmente, tanto no jornalismo como na literatura. Acredita que a igualdade entre homens e mulheres ainda está muito distante. “Os homens ainda não conseguiram captar a sensibilidade do mundo feminino.”

Sobre política, em especial o fortalecimento da extrema direita no mundo todo, diz que observa com cautela fatos como o Brexit -a decisão do Reino Unido de deixar a União Europeia – e a candidatura de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos. Para ela, há um medo em relação ao futuro em todo o mundo, que é diferente do que se experimentava no passado.  Daí haver um apego a modelos antigos em busca de segurança. “O mundo precisa começar a viver pelas razões do homem comum. Os líderes atuais não passam de homens medianos. Não têm caráter expressivo”, afirma.

* A repórter viajou a convite do Itaú Cultural

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