Violência e descriminalização das drogas tomam discussões de Flip

Discussões em torno da violência se impõem na Festa Literária Internacional de Paraty, com distintas vozes defendendo a descriminalização das drogas. Ataques raciais são alvo de análise

por Carolina Braga 02/07/2016 10:00

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VANDERLEI ALMEIDA/AFP
VANDERLEI ALMEIDA/AFP (foto: VANDERLEI ALMEIDA/AFP)

Paraty – Ouvir da boca de um delegado de polícia que a legalização das drogas é um caminho possível para pacificação nas favelas cariocas parece ficção. O mesmo vale para jornalistas atuantes em grandes redes da mídia tradicional no Brasil e no exterior. Não se trata de fantasia. As falas em favor da descriminalização do tráfico, em espaços e momentos distintos, configuram uma sintonia da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) 2016.

Determinados temas são muito fortes para não darem as caras. A saudação “primeiramente Fora, Temer!” virou bordão em Paraty, independentemente do tamanho do palco. A jovem poeta Laura Liuzzi foi ousada. Na Tenda dos Autores, o espaço mais nobre do festival, leu um poema do vice em exercício e constatou em público: “É muito ruim”.

São sinais de que falar sobre política, violência, desigualdade racial, social e de gênero é mais urgente do que a curadoria gostaria de supor. A expectativa é que a vencedora do prêmio Nobel no ano passado, a jornalista e escritora nascida na Ucrânia Svetlana Aleksiévitch, reforce hoje o cunho político desta Flip. A autora deVozes de Tchernóbil (Cia das Letras, 2016) despertará na pauta discussões em torno das responsabilidades de acidentes ambientais? Falta isso.

Foi em uma das tantas casinhas do centro histórico de Paraty, com a parede de rochas aparentes, que o debate sobre violência ganhou eco explícito. Distante da programação oficial, o tema encontrou abrigo na Liga Brasileira de Editoras, a Libre, que reúne editoras independentes no mercado brasileiro. Personalidades como o teólogo Leonardo Boff e políticos como a senadora Fátima Bezerra e o deputado Marcelo Freixo se juntaram a acadêmicos e escritores para falar sobre a cultura do medo, na quinta-feira.

Com coragem, o delegado Orlando Zaccone abriu os debates com uma defesa contundente de que o modelo punitivo aplicado no Brasil é falido. É também um paradoxo. “Você não vai resolver o problema da homofobia prendendo o homofóbico. Isso se resolve com política”, afirma. A experiência nas delegacias do Rio de Janeiro ensina que o Estado chamou para si a função de punir. Faz isso com tanta violência quanto o crime. “O Estado brasileiro e a sociedade aprovam a execução de criminosos. Se Amarildo tivesse sido construído como traficante, como alguns tentaram, ninguém teria discutido o caso”, diz.

Autor dos livros Indignos da vida: a desconstrução do poder punitivo (2015) e Acionistas do nada: quem são os traficantes de drogas (2011), Zaccone é fervoroso na defesa de políticas públicas como combate a chagas sociais como o machismo, a homofobia e, principalmente, o narcotráfico. “A partir do momento em que legaliza, acaba a guerra. Tem alguém tomando conta de farmácia com fuzil? Viagra mata mais que a maconha.” Para ele, se as campanhas contra o consumo funcionaram com o tabaco, por que não com outras drogas?

A escritora mineira Cidinha da Silva foi a convidada para falar sobre violência racial. Para comprovar o quanto ela está inserida no contexto mais amplo do racismo, a autora recuperou casos recentes de crimes cometidos contra negros. Com muita calma, comentou um a um, entre eles o fuzilamento de cinco jovens no Rio de Janeiro, o do servente de pedreiro Amarildo e o de Luana Reis, de Ribeirão Preto, espancada até a morte. “É preciso explicitar as dimensões raciais da vida brasileira”, argumenta. O próximo projeto de Cidinha é um livro que pretende oferecer um letramento racial. “Vou reunir textos em que explico o que está acontecendo. Vou mostrando (a violência racial) quase de maneira didática.”

VIOLÊNCIA SIMBÓLICA

 
O escritor paulistano Ricardo Lísias, autor do romance Divórcio (2013), foi um dos participantes da programação da Casa Libre. Ele foi convidado a falar sobre a cultura do medo, em especial, sobre os textos da violência e a violência dos textos. “Se meus textos não forem violentos, eu falhei. Escrevo para machucar pessoas, instâncias sociais, instituições e obter determinados tipos de movimentações”, diz o autor, um crítico ferrenho da mídia tradicional. No romance Divórcio(2013), Lísias narra a própria separação, após descobrir o adultério da ex-mulher por meio do diário dela. Na época do lançamento, teve a ética questionada ao se apropriar de confissões alheias e torná-las públicas, ainda que romanceadas. Violentou e foi violentado.

No último dia 12 de junho, Lísias foi absolvido de um processo que o acusava de falsificação de documentos. Desta vez, nada a ver com o polêmico divórcio. É uma história curiosa, que começou com uma vontade de entender os mecanismos da fofoca, despertou uma pesquisa literária de personagens de ficção, gerou conflito na justiça real e virou uma peça de teatro. O livro Inquérito policial família Tobias, em formato de documento jurídico, foi lançado em maio deste ano pela editora Lote 42.

Eis a gênese do projeto: em 2014, o autor começou a fazer experimentos para uma série de e-books sobre o Delegado Tobias. “É um personagem que inventei”, conta. Por acaso, o policial da ficção investigava o próprio escritor, o único sujeito que realmente existia na história. Faziam parte do livro digital documentos fictícios que, fora de contexto, foram denunciados ao Ministério Público (sete vezes e em diferentes estados brasileiros) como falsificações.

Lísias foi chamado a depor. Virou réu da trama que ele mesmo criou. Teve que arrumar advogado e participar de todo o ritual jurídico. No fim das contas, a justiça concluiu que tudo não passava de uma obra artística. Sim, simbolicamente violenta, repleta de ironias, mas ficcional. “Não é violência física, porque é literatura. Espero que tenha lugar de força de intervenção.”

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