A poética do nó reflete sobre a existência e a palavra

Primeiro livro do belga Serge Núñez Tolin traduzido no Brasil, Nó dado por ninguém reflete sobre a existência e a palavra

por Walter Sebastião 02/07/2016 10:48

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Reprodução da internet/micheldurigneux-limagement.blogspot (foto: Reprodução da internet/micheldurigneux-limagement.blogspot)
Leva o nome de Nó dado por ninguém o volume (Lumme Editor) que apresenta poeta contemporâneo: o escritor Serge Núñez Tolin, nascido em 1961, em Bruxelas, filho de pais espanhóis, com livros solos desde 2001. Estão no livro cerca de 50 textos, com tradução de Júlio Castañon Guimarães, atravessados de singularidades fascinantes. A primeira delas é serem textos vizinhos da prosa (ou algo como o verso livre levado a extremo), com músicalidade estranha – do qual o título do livro é só um exemplo. Os poemas de Núñez Tolin se voltam para a interpelação sistemática da palavra, expondo o que o discurso linear oculta: o vazio, o silêncio, o branco, mas também a vertigem do verbo, a distância da escrita de tudo, a sede e a fome (informe, para o poeta) de respostas para as dúvidas humanas.


Todos os textos são marcados por dramaticidade “lúcida”, controlada, a instaurar meditação intensa, que o revela cético quanto à transcendência, mas se mostra envolvente. “Vazio mas não da maneira como a palavra o diz, nu ilimitado no recuo das coisas, deixando tudo a nu, sendo o nada apenas uma condição particular dessa nudez, desse vazio sem beira”, escreve Núñez Tolin. Ou então: “O que não atingiremos, o que não pertubaremos, o que nada nem ninguém dirá, sente-se que temos uma ligação: nó dado por ninguém. Não se suspeita do silêncio sob a chuva, no entanto ela encerra a imensidão muda de um silêncio mudo ainda mais vasto”.


Em alguns textos, reluz ironia movida também pela provocação: “Aventurar-se na noite dentro da noite diante de si não é mais, por fim, escrever estas palavras, é avançar naquilo que elas não têm condição de dizer. Solidão que nos moldaria até sermos uma palavra, se agora tudo não convocasse ao silêncio”. Ou: “Círculo infinito invejando o centro, centro sem prumo nos limites. Assim começa a fome que se apossou da noite. Essa eternidade extravasada, azul, como uma laranja sobre a mesa”. E também: “O mundo não é uma unidade de que não seríamos sequer um fragmento que deixaria supor o remembramento possível”. E também: “Há essa opacidade da matéria em que o ser está em seu pleno rendimento de ser. Mas não existe caminho para a atingir, pois, nada, como o ar no ar, marca sua presença”.


Até existe ênfase em uma dimensão metalinguistica, mas ela se dá como afirmação do texto como meio (de fato quase metáfora) para captar embate entre mundo, corpo, paisagem, tempo, opacidade, silêncios, fala etc. Há atenção com os sentidos, como o ouvir, mas, especialmente, a visão ronda as especulações do poeta. “O presente de tudo o que pertence ao tempo é apreendido pela paisagem. A vista é o órgão do presente. As palavras não apreendem nada do mundo; falar apreende o homem. Tiramos as palavras de nossa obscuridade mas sem esperar que levem à luz”, garante. E novamente: “Em toda paisagem, há alguma coisa nascendo, a começar pelo olhar. A visão não acaba onde ela chega, começaria até mesmo no ponto onde se perde”. “Olhar uma coisa até a encontrar em si proprio”, propõe.


O poeta expõe motivos que ecoam questões trabalhadas por muitos poetas de orientações estéticas modernas distintas (de Francis Ponge a T.S. Eliot, além de evocaçao de temas românticos). Mas que, “respirados na carne”, para usar bela expressão de Serge Núñez Tolin, ganham pulsação distinta, que procura a poesia (mais do que a palavra) como um modo de existir do humano. Outra singularidade no livro é o modo como imagens, formas e considerações se articulam. Há, ao longo de todo o volume, tensão entre o fragmento e o todo, sem ceder ao encanto volúvel do primeiro, nem à voracidade impositiva do último. Às vezes, vem a sensação de se tratar de um único poema, mas lacunas, desvios e dispersão calculada oferecem resistência a esta percepção. Puro charme do poeta exercitando o que Erza Pound chamou de logopéia. Isto é: a dança do intelecto entre as palavras.

 

NÓ DADO POR NINGUÉM
De Serge Núñez Tolin
Lumme Editor, 116 págs., R$ 34



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