Livro mergulha na ditadura para narrar o percurso de homem conduzido a exercer o papel de traidor

'Cabo de guerra', de Ivone Benedetti, faz um recorte em meio aos anos de chumbo brasileiros

por Eduardo Murta 01/07/2016 14:00

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(foto: Reprodução)

Traidores, desde sempre, se viram obrigados a ocupar o limbo da história. São uma espécie de negação de tudo o que represente um traço mínimo sobre a virtude. Mais amaldiçoados ainda os que, protegidos pelas sombras, validaram práticas indefensáveis, como o caso da tortura. Ao menos a literatura tem o poder de condenar personagens assim ao maior fantasma de quem carrega cadáveres às costas: a expiação. E num Brasil que se depara cotidianamente com fantasmas da ditadura militar, ainda que ela tenha sido sepultada em cova rasa há mais de três décadas, a reflexão sobre o que essa gente fez no verão passado segue atual.

O romance Cabo de guerra, de Ivone Benedetti (também autora de Immaculada, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2010, e Tenho um cavalo alfaraz, contos) ajuda a mergulhar num desses recortes dos anos de chumbo brasileiros, vividos depois do golpe militar de 1964. O protagonista deixa o interior da Bahia e, pela mão da casualidade, vai se integrar a grupos de resistência aos golpistas, para em seguida “cair”. Cumpre papéis periféricos junto a militantes de esquerda e, já à primeira sessão de tortura, alista-se nas fileiras inimigas. De novo em papel periférico, mas que custaria umas tantas vidas.

Na construção do personagem, Benedetti não só o apresenta como um fraco, hesitante e incompetente, mas o priva de um dos maiores símbolos daquilo que poderia humanizá-lo: ele simplesmente não tem um nome. E ser visto com desdém tanto pelos militantes de esquerda quanto pelos torturadores, além de rejeitado pela namorada, o transforma num trapo ambulante. Sua autoavaliação é reveladora: “Aqui sempre fui exilado. Imagine-se um sujeito como eu metido numa guerra que não lhe pertence. Entrei nela sem fazer nada e nada fiz para sair. Foi tudo por via de empurrões.”

Ele é eterno coadjuvante se o assunto é estofo intelectual, competência profissional ou mesmo capacidade de encantamento entre as mulheres. Pior: visto com ar de desconfiança por onde andasse. Autoestima próxima do marco zero. Um tipo perto do desprezível. As circunstâncias, assim, lhe darão a chance com a qual sonha qualquer oportunista: ganhar o mínimo de relevância, ainda que seja entrando pela porta dos fundos.

O centro da trama se passa numa São Paulo que, historicamente, teve peso tanto nas ações de guerrilha urbana como no que se passou nos porões da ditadura. Nesse sentido, a obra de Benedetti entrega menos do que promete. Talvez pela escolha da autora em optar por um microcosmo que flerta mais com a imersão do personagem central do que propriamente com a tensão das missões clandestinas ou a descrição de cenas viscerais no campo da tortura. É como se a condição de “Zé ninguém” do protagonista contribuísse para essa desaceleração.

Benedetti se impôs, para além disso, um desafio que não é fácil numa obra literária: intercalar fases distintas, entrelaçar o antes, o agora e o depois. A escolha dá a Cabo de guerra um ligeiro e prejudicial ar de confusão, especialmente pela presença de um componente extra na história: o estado mental perturbado do personagem. Em lugar do bom jogo de espelhos, em que o autor sugere ao leitor uma saída e o direciona a outra, o recurso aqui por vezes se transforma num caleidoscópio. Há perdas na interpretação quando o que seria real pode ser ficção e quando o que é ficção poderia de fato ter ocorrido e isso não tem clareza o bastante.

Nada, porém, que comprometa a qualidade da obra. Benedetti tem texto lapidado e vai bem na perspectiva que se propôs, a da imersão. Assim, joga luz sobre o dilema que certamente atormentou os que se dispuseram a fazer papel de “cachorro”, como eram chamados os militantes que passavam a servir à repressão. O protagonista fala por si e por muitos que atravessaram essa linha da maldita duplicidade: “Portanto, os mortos. Um a um. Todos doem, por um motivo ou por outro. Carlos, Alfredo, Maria do Carmo, Carmen, os tios dela, o homem dos olhos de cortina e mais uma infinidade de desconhecidos, não há um que não desfile nem deixará de desfilar por aqui de dia ou de noite, enquanto houver uma janela que me permita enxergar o sol ou nuvens.”

A traidores, limbo e eterna expiação.

TRECHO

Na construção do personagem, Benedetti não só o apresenta como um fraco, hesitante e incompetente, mas o priva de um dos maiores símbolos daquilo que poderia humanizá-lo: ele simplesmente não tem um nome

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