Beatriz Azevedo lança obra que destrincha o 'Manifesto antropófago'

'Antropofagia palimpsesto selvagem' é uma minuciosa análise do manifesto criado por Oswald de Andrade

por Pablo Pires 01/07/2016 14:00

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Reprodução da internet
Gravura do alemão Theodor de Bry (1596) mostra grupo de índios brasileiros praticando a antropofagia conforme descrito por Hans Staden (foto: Reprodução da internet)

O Brasil sempre foi um país de incertezas. Entre o sim e o não há um universo vasto e impreciso. Dizer não é sempre mais fácil do que propor e apontar caminhos. Ter certeza do que se quer, do que se deseja, porém, não é simples. Aceitar a incerteza, mais ainda. É preciso ter estômago. O Brasil é osso duro de roer. Mas teve um sujeito que dedicou a vida a roer esse osso. Oswald de Andrade (1890-1954) foi. Foi ele o artista que ousou dizer sim. E criou um conceito essencial para se entender e lidar com este país. Chamou-o de antropofagia.

Oswald foi um dos mentores da Semana de Arte de 1922, escreveu o Manifesto pau-Brasil dois anos depois. Em 1928, publicou o Manifesto antropófago, texto que discute estética, filosofia e política de maneira única. Suas palavras, um tanto herméticas, aprofundaram a ruptura crítica proposta pelo modernismo. Mais relevante, todavia, foi ter concebido ali uma visão de mundo própria e singular.

A poeta, compositora e pesquisadora Beatriz Azevedo se dedica ao tema há tempos e tem sido voz ativa na divulgação das ideias e ideais de Oswald. Fascinada pela potência do manifesto, deglutiu páginas e páginas, por anos, até conceber um livro: Antropofagia palimpsesto selvagem. A obra – belíssimamente editada pela Cosac Naify, com capa desenhada por Tunga – destrincha o Manifesto antropófago.

O texto de 1928, publicado na Revista de Antropofagia, tem crescentemente se tornado objeto de debate no Brasil e em outros países. “É um pensamento de ponta. Como diz Viveiros de Castro [antropólogo], Oswald é o maior pensador do século 20. E, como diz Augusto de Campos [escritor e crítico], é a única filosofia original do Brasil, o único conceito filosófico realmente criado neste país, autônomo. E essa importância já está sendo reconhecida no mundo inteiro”, argumenta a autora.

Antropofagia palimpsesto selvagem é uma minuciosa análise do manifesto criado pelo escritor paulista. A autora descreve o percurso trilhado por Oswald, contextualiza as referências históricas, dimensionando-as e distiguindo que os postulados carregam de circunstancial ou atemporal. Beatriz concebeu o livro em estrutura de refeição, um cardápio que começa com aperitivo, entrada, primeiro prato e chega até o prato principal. Nesta parte, a autora se dedica a comentar, um a um, os 51 aforismos que compõem o Manifesto antropófago. Em seguida, se concentra em apontar a polifonia e as múltiplas direções contidas no texto. Mais do que determinar uma ou outra interpretação, a obra lança luzes sobre o processo, sempre em mutação, da obra oswaldiana.

Entre as inúmeras direções apontadas pelo manifesto, o conceito de primitivo é essencial. Oswald de Andrade propõe o retorno ao primitivo. “Ele teve um insight que era por essa via de encontrar a nossa origem ameríndia que ele, politicamente e filosoficamente, propôs o radicalismo que ele estava querendo porque a antropofagia é a religião de Pindorama”, explica a pesquisadora. O antropófago se alimenta da matriz ameríndia para negar todos os “ismos” e propostas filosóficas e estéticas do Velho Mundo. Para ele, a antropofagia era elemento revolucionário, com ideias políticos (contra o Estado), estética (de transformação permanente) e social (de uma relação de matriarcado). “Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.” Este primeiro aforismo do manifesto já anuncia a radicalidade da utopia antropófaga.

“Já tínhamos o comunismo”, afirma no manifesto. Para a autora, “Oswald já enxerga o comunismo na vida comunitária ameríndia, a tribo, a taba, é tudo comunitário. A comida é para todo mundo. Isso é totalmente diferente desse mundo urbano capitalista em que a gente vive”. Nessa concepção está embutida a noção de matriarcado, um dos conceitos essenciais do manifesto. Na visão de Oswald, matriarcado contém a lógica comunitária, uma visão de tempo sincrônico. “Por isso, ele criou uma dimensão de tempo que é de fluxo, que é a dimensão de tempo ameríndio. Por isso ele fala do não datado no manifesto, sem o cronológico patriarcal. É o tempo cíclico, o tempo do sagrado”, comenta Beatriz.

Criado na aristocracia paulistana, Oswald se rebela contra todas as instituições e padrões que vigoravam em seu tempo. Casou-se sete vezes, criou desafetos como poucos, mas sempre fez do humor uma arma de luta. “Ele percebeu que a diferença que o Brasil tinha que imprimir na filosofia, no pensamento e nas artes era realmente essa coisa da brincadeira, da blague, do humor, do relaxamento”, destaca Beatriz, atribuindo ao poeta a linhagem de Gregório de Matos e Lima Barreto. “Essa ideia é muito importante, porque tudo que é muito sério parece que tem uma pureza e, se a gente pode contribuir com alguma coisa, é exatamente com o nosso jeito que é impreciso por natureza. A gente nunca vai ser um relógio suíço.”

Talvez o mais importante dos princípios antropofágicos é a ideia de “transformação permanten do tabu em totem”. Essa utopia, segundo a autora, se volta “contra as ideias objetivadas, cadaverizadas”. “Tudo o que se estratifica, o Estado, a família, a sociedade, o papel social, na visão de mundo dele, morre, mata a seiva. Então, essa transformação permanente do tabu em totem é para deixar tudo sempre renovado. Ele era um cara tão antenado que ele via todas as ideias que podiam se cristalizar, e ele ia lá e chacoalhava. diz que o importante não é ter uma síntese única, mas mostrar as contradições aparentes e a pluralidade.”

Certamente, o olhar renovado de Beatriz Azevedo sobre o Manifesto antropófago vem em boa hora. Inconformista, idealista e eterno provocador, Oswald de Andrade e sua antropofagia se faz mais urgente do que nunca. Afinal, “tupi or not tupi that is the question”.

Antropofagia palimpsesto selvagem

• De Beatriz Azevedo.
• Cosac Naify.
• 240 páginas.
• R$ 86

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