Aumento de leitores e eventos literários faz crescer número de autores à procura de chance para publicar

Apesar de restrito, Brasil amplia seu público leitor. Começa hoje, em Paraty (RJ), a 13ª edição da Festa Literária de Paraty (Flip); veja os caminhos e dicas para quem quer publicar

por Carolina Braga 29/06/2016 08:00
Arte/EM
(foto: Arte/EM)

O leitor existe. Mas “por que ele tem que ler seu livro e não um Saramago? Ou uma Alice Munro? Ou até um Stephen King, que seja?”, pergunta a autora Luisa Geisler. Em uma espécie de texto-desabafo, a escritora de 25 anos compartilhou no blog da editora Companhia das Letras uma série de inquietações dedicadas aos autores não-publicados. Ou, como ela prefere, autores (ainda) não publicados.

O momento em que Luisa faz isso é oportuno. Começa hoje, em Paraty (RJ), a 13ª edição da Festa Literária de Paraty (Flip). Ao longo de cinco dias, pelo menos 39 autores consagrados estarão na cidade para falar sobre seus trabalhos na programação oficial. Ao redor deles, um “mundo de pessoas com livros na gaveta”, como descreveu Luisa na carta aberta dedicada aos colegas.

Geisler, apesar da pouca idade, faz parte do universo dos que batalharam para ver as palavras impressas. Apostou nos concursos literários e desencantou. Com o Prêmio Sesc de Literatura, nasceu Contos de mentira, e com o Prêmio São Paulo de Literatura e o Prêmio Machado de Assis, Quiça. O terceiro livro já saiu com editora. Em 2014, a Alfaguara publicou Luzes de emergência se acenderão automaticamente. Três livros aos 25 anos é caso raro.

O escritor mineiro Rodrigo Lima Diniz, de 31 anos, desistiu do caminho convencional das editoras. Ele desconfia de que pode existir certa homogeneidade na literatura consagrada. “Não quero desmerecer nenhum desses autores – Saramago, Alice Munro e Stephen King – mas, se as pessoas se permitirem ler pessoas novas, não tão famosas, podem se surpreender com modos diferentes de fazer aquilo que já era estabelecido”, opina.

ESPERA Como autor independente, Rodrigo, que também trabalha como analista de qualidade de software, não escapou da peregrinação. Diferentemente de Luísa, os concursos não tiveram vez no radar dele. Procurou várias editoras. “Vi que muitas delas tinham termos lacônicos para responder. Chegaram a dizer que poderiam demorar até dois anos para avaliar”, conta. Preferiu não esperar.

Omni foi disponibilizado na plataforma sob demanda Agbook. Funciona assim: os autores liberam a obra e, a cada interessado, o livro é impresso por encomenda. Já com O efeito Engelberg, pronto para ser lançado, Diniz tenta outro caminho. Fez um financiamento coletivo. Mesmo que ainda não seja tão conhecido, não perde tempo.
A capixaba Thayná Heredia, de 20 anos, não teve a mesma iniciativa e vive um momento de incertezas. Estudante de pedagogia, desde os 10 anos tem o hábito de escrever. Aos 15, terminou Secreto, o primeiro romance do gênero fantasia. Sem noção alguma do mercado editoral, nem registrou a obra. “Já tentei mandar para algumas editoras, mas nunca recebi resposta. Todo autor acredita que sua história deve ser lida”, afirma Thayná.

Hoje, tem três livros prontos na gaveta: um de contos e dois romances. Já tentou feiras literárias, autopublicação e a última tacada foi enviar e-mails com pedido de ajuda para colegas escritoras. Entre as escolhidas estavam Babi Dewet, autora de Sábado à noite, e Gisele Mirabai, roteirista e escritora de Guerreiras de Gaia e outros três livros. Na mesma mensagem que mandou a todas elas, a decepção explícita e o cansaço. “Sabe quando você não recebe apoio de lado nenhum. Acaba desistindo”, diz Thayná.

Oficina “É meio como Cartas a um jovem poeta, do (Rainer Maria) Rilke”, descreve Gisele. Com quatro livros publicados, cada um por via diferente, a escritora mineira radicada em São Paulo dedica algum tempo para compartilhar com os colegas as peregrinações para alcançar o objetivo. O e-mail de Thayná não passou batido.

Gisele mantém um canal no YouTube para passar dicas para quem deseja publicar um livro. Além disso, orienta projetos específicos. “O caminho da editora é o mais difícil”, constata. A autora se mudou de Belo Horizonte para São Paulo para participar de um curso de literatura com o escritor Marcelino Freire. Ficou por lá. Da oficina, saiu o livro Onde Judas perdeu as botas, editado pela Edith, selo criado pelo autor e professor especialmente para atender colegas iniciantes.

“O que eu procuro são parceiros de ofício”, diz Marcelino. O autor de Angu de sangue (2000) e Nossos ossos (2013) está radicado em São Paulo há 25 anos. Na carreira de escritor, bastou receber um não. Diz que foi decisivo para que não ficasse esperando mais por ninguém. “Eles podem dizer não para mim, mas eu não posso dizer não a mim mesmo.” Passou a publicar os próprios livros.

Marcelino Freire criou a Edith para manter vivo seu lado amador. “Continuo envolvido para não achar que já cheguei lá.” Sente-se um provocador e incentivador da publicação. Frequentemente convidado para apreciar obras de jovens escritores, para o pernambucano, independentemente da experiência de quem se põe a combinar palavras, não lhe deve faltar originalidade. “Se leio um livro que só poderia ser escrito por esta pessoa, já me interesso imediatamente. Personalidade é fundamental.”

OS CAMINHOS


Gisele Mirabai, roteirista e escritora, dá dicas para quem quer publicar

1) EDITORA
O caminho mais comum é também o mais difícil. É preciso que a obra se encaixe nos perfis editoriais. Recebem milhares de livros, fazem uma breve triagem e descartam muito rápido. A dica é conhecer bem o perfil de cada editora.

2) SELOS PEQUENOS

No mercado editorial, as pequenas editoras se unem aos autores para fazer colaborações. Segundo Gisele, é comum até que a conta para a publicação seja dividida entre o selo e o autor.
É uma relação mais informal
que tem funcionado.

3) CONCURSOS LITERÁRIOS

São vários sites de concursos e prêmios para livros inéditos. Cada um recebe a obra em um determinado formato (impressa ou pdf). Em geral, oferecem prêmios em dinheiro e a publicação. De acordo com o blog http://concursos-literarios.blogspot.com.br/, em julho estão abertas as inscrições para 10 concursos dedicados a poesia, prosa, conto e crônica.

4) AUTOPUBLICAÇÃO

São várias formas de autopublicar um livro. O próprio autor se responsabiliza por todas as etapas, ou seja, redação, revisão, diagramação etc. Ele mesmo escolhe uma gráfica e manda fazer o livro. Outro caminho são as plataformas de autopublicação existentes na internet. Gigantes do mercado como Amazon e Apple oferecem caminhos para que o próprio autor disponibilize a obra e o público é quem dirá se vale a pena ser lido ou não. Tem sido comum editoras convidarem escritores após a repercussão dos livros nessas plataformas.

Cada caso, um caso


O que a saga de Harry Potter tem a ver com o soft erótico Cinquenta tons de cinza? São dois curiosos casos do mundo editorial em que suas autoras, respectivamente, J.K. Rowling e E.L. James, não desistiram depois de receber alguns “nãos”.
A história sobre o jovem mago, por exemplo, começou a ser pensada em 1990. Rowling dava aulas de inglês em Portugal e definiu que a história do bruxo teria sete livros, um para cada ano dele na escola. Com o fim de seu casamento, a autora se mudou para a Escócia, em 1994, e começou a escrever em cafés. Em entrevistas, revelou ter ficado deprimida com a falta de perspectivas e de dinheiro.

Quando enviou o primeiro manuscrito a um agente literário, recebeu como resposta uma educada carta de recusa. Foi Christopher Little, o segundo agente procurado, quem acreditou no potencial da história. Harry Potter foi lançado na Inglaterra em 1997 pela Bloomsbury, uma pequena editora comandada por Liz Calder. Curiosamente, Liz é a criadora e presidente da Flip, evento viabilizado em parte com o milionário lucro gerado pelo sucesso da série de Harry Potter.

Naquela época, as facilidades da autopublicação não estavam ao alcance de J.K. Rowling. Por isso, E.L. James, a autora de Ciquenta tons de cinza, é diferente. A autora trabalhava como executiva de uma rede de televisão quando resolveu escrever de forma independente na internet. O boca a boca chamou a atenção da Editora Random House.

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