Livro de Sylvie Debs demarca a presença da literatura popular, de 'Deus e o diabo na terra do sol' até animação

Veja a entrevista da escritora sobre o lançamento de 'Cinema e cordel: Jogo de espelhos'

por Severino Francisco 20/06/2016 08:00

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Arquivo EM/1964
Othon Bastos vive o Corisco em Deus e o diabo na terra do sol: cordel recriado na tela (foto: Arquivo EM/1964)

O fascínio da professora francesa Sylvie Debs pelo Nordeste veio por linhas tortuosas, ao ler os primeiro parágrafos do romance A guerra do fim do mundo, de Mario Vargas Llosa. Logo, lhe vieram à mente as imagens rascantes de Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha e ela decidiu estudar e conhecer o sertão. Ela mergulhou no tema e fez um doutorado em Toulouse sobre as relações entre cinema e literatura brasileira. Durante a pesquisa, estabeleceu conexões entre a literatura popular e o cinema, traçando uma linha que vai de Deus e o diabo na terra do sol até animações mais recentes, como O lobisomem e o coronel, de Ítalo Cajueiro, passando por Viramundo, de Geraldo Sarno, O homem que virou suco, de João Batista de Andrade, O país de São Saruê, de Vladimir Carvalho, entre outros. Esse é o tema do primeiro volume da série Cinema e cordel: Jogo de espelhos (Interarte e Lume Filmes), em que reúne ensaios e entrevistas, que se entrelaçam para revelar a presença e as mutações da literatura popular na produção audiovisual brasileira. Nessa entrevista, ela fala sobre o caminho de descobertas que a levaram a desenhar quase que uma outra história do cinema brasileiro, a partir da narrativa fantástica do cordel.

Como se envolveu pessoalmente com o tema cordel?
Eu já tinha feito uma tese sobre cinema e sertão. Fiz viagem, entrevistei Patativa do Assaré. Certo dia, li uma frase do Glauber Rocha, na época em que estava preocupado com a temática do Cinema Novo, de que se deu conta de que a maneira mais simples de contar uma história era a literatura de cordel.

Qual o impacto de viajar pelo sertão?

O impacto maior foi encontrar o Patativa do Assaré. Como francesa, senti uma emoção muito intensa em ver um poeta recitar de cor centenas de poesias. Me remeteu ao passado europeu da Idade Média. Conheci os países árabes, quando tem uma festa, alguma pessoa começa a fazer um improvisação. Na Córsega, tem quem faz esse improviso. Quando vi, isso se conectou com a raiz francesa e mediterrânea. Fiquei curiosa de ver como essa tradição permanece tão viva no interior do Brasil. No ano passado, fui a um festival de repente e constatei o vigor da poesia popular brasileira. Gosto de estudar o cinema por um lado, mas aprecio ter um contato com o cordelista ou o diretor de cinema, Me interessa o laboratório, como transforma a realidade em obra de arte. Os segredos da fabricação, Por isso, o livro é constituído por ensaios e muitas entrevistas.

Como foi a abordagem da pesquisa?

Em alguns filmes de Glauber, principalmente em Deus e o diabo na terra do sol e em O dragão da maldade, o modelo narrativo é o da literatura de cordel. Ele recorre à clássica chegada de Lampião ao inferno. Deus e o diabo é quase todo escrito como um cordel. Ele pediu a trilha sonora para Sérgio Ricardo, que era uma pessoa do Sul, só dominava o samba. Se conheceram em uma sala de montagem. Deu para Sérgio Ricardo fitas de repentistas das feiras do Nordeste. Sérgio demorava para fazer a música. Glauber ligou para ele e Sérgio mostrou o que estava fazendo. Glauber falou: é isso, vem para o estúdio gravar. Modificou a voz para entrar no ritmo nordestino. A trilha sonora é uma beleza.

Como percebe os filmes sobre Patativa do Assaré?
Rozemberg Cariri fez dois curtas e um longa. Ele mostrou a importância da poesia popular. permanência desse universo popular está muito presente no cinema de Rosemberg Cariri.


De que maneira o cordel se transforma em tema para filmes urbanos, na linha de O homem que virou suco, de João Batista de Andrade?

Começei a ampliar a pesquisa, examinando os filmes ou documentários que tivessem a ver com cordel. Viramundo, de Geraldo Sarno, conta a chegada dos nordestinos em São Paulo. Em filmes de ficção, o único que tem como protagonista um personagem de cordel é O homem que virou suco, de João Batista de Andrade. É um filme que se passa em São Paulo, mas se justifica pelo número incrível de nordestinos que trabalhavam em São Paulo.

Qual é atualidade do cordel como fonte de um imaginário cultural, mesmo que perca espaço na realidade cotidiana?

Se isso repercute no cinema, ele tem muita força. Primeiro, ele porta temáticas universais, religiosas, sociais, aos ricos os pobres. Retoma clássicos da literatura, histórias de amor, tramas amorosas ou dramáticas. Vai encontrar as mesmas preocupações no cinema. A literatura do cordel é feita por pessoas das novas gerações. Tem uma geração de jovens de 20 anos que está produzindo nas grandes cidades. Não é mais só do sertão, produzem, circulam e utilizam internet. Não existe mais uma diferença enorme entre o cordel e o cinema. São permeáveis. E, os novos cineastas nordestinos, mesmo sem saber, mesmo sem consciência, tem uma maneira de narrar que parece com o cordel.

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