Feira Faísca destaca talentos das artes gráficas produzidas em BH

Autores experimentam linguagens variadas, como escritas urbanas, caligrafia, colagens, HQ, RPG e até datilografia

por Walter Sebastião 17/06/2016 14:55

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As feiras gráficas vêm apresentando ao público o que é a “bossa nova” dos alternativos e independentes: livros, cartões, cadernos, revistas, fanzines, gravuras e camisetas transformados em meio de experimentação plástico-literária com o emprego de técnicas antigas e novas tecnologias. Um exemplo da babel gráfica que tem sido produzida por artistas, editores e coletivos poderá ser conferido na Faísca – Mercado gráfico, que será realizada amanhã, no BDMG Cultural.

Promovido no terceiro sábado de cada mês, o evento completa um ano, reunindo peças que extrapolam conceitos e práticas. É o caso dos cadernos, pôsteres e cartões de Pedro Valentim, “100% caligráficos”, como o artista gosta de dizer. São registros do projeto Um poema por dia, que ele vem desenvolvendo desde 2014 – com caligrafias, a partir de 2015. O trabalho se inspira nas escritas urbanas, “da pichação clássica às tipologias das lojas comerciais”, explica Pedro. Tudo vem de duas paixões dele: o rap e o grafite. Nesses elementos está a atenção ao ritmo, à rima e ao uso da caligrafia.
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Só vocês - O retorno - Baleia #2, de Rebeca Prado (foto: Reprodução)

Desde 2012, Lívia Aguiar desenvolve o projeto Flores de rua. Ela coleta flores que brotam nas cidades sem terem sido plantadas. Escaneia os vegetais e faz colagens publicadas em zines, pequenas publicações feitas com xerox ou em gráficas rápidas. Os trabalhos trazem observações sobre o caos das megalópoles, que vêm se desdobrando em criações com outros motivos e simbologias. “O zine é um gênero”, defende Lívia, argumentando em favor de narrativa poética, simples, informal e despretensiosa editada em publicações que, fisicamente, cultivam os mesmos valores.

“O bom numa feira gráfica é ver a diversidade de produtos. Tem público para todo mundo”, conta Lívia Aguiar, citando de gente que gosta de artes gráficas a pessoas que procuram um presente diferente “ou uma história contada de modo diferente”.
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Ilustração de Diego Fagundes (foto: Reprodução)

Para Pedro Valentim, as feiras gráficas registram o ecletismo do setor. “Isso oferece a possibilidade de democratização da arte”, acrescenta. O importante da Faísca é a tentativa de criar mercado para a produção, reforça.

Experimentação O coletivo Phonte 88 foi criado em 2015 por Thyana Hacla e Circe Clingert – respectivamente, estudantes de artes visuais e de letras. Elas vão expor os títulos Pontos cordiais, Metas felizes, Bizarro borboletário botânico, Verborragias e EntrEMim, além de livros de imagens e poemas. “Trabalhamos com experimentações gráficas”, explica Thyana, avisando que o grupo se vale tanto do digital quanto de “técnicas um pouco mais arcaicas”, como a datilografia.

Phonte 88 tem lançado tiragens mínimas – um livro manuscrito ganhou 10 exemplares. Planeja projetos maiores. É o caso dos 100 exemplares do Livro das malcriações para crianças bem cuidadas, de Fernando Ferreira, que chegarão a público em julho. “O essencial no trabalho independente não é o tamanho da tiragem, mas não depender de selo consagrado para realizar o projeto. É autonomia criativa”, argumenta.

Thyana Hacla não faz drama em relação às dificuldades da produção editorial. Conta que o processo é divertido. “É um momento de flerte entre o real e o imaginário. Concebida a peça, parte-se para a criação dela, como um filho. Trabalhoso, mas não é ruim”, observa.
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A flor da vida, de Fabiana Santana (foto: Reprodução)

Para ela, o aumento do interesse por manifestações gráficas tem bons motivos. “Livro traz forte carga afetiva, intelectual e formativa. A geração que não viveu isso, devido à internet, tem experimentado as saudades do papel”, revela.

Quadrinhos A Peba Edições, de Marcelo Dola, foi criada em 2006. Na Faísca, vai exibir fanzine e, especialmente, quadrinhos. 4X4 é o gibi assinado por Marcelo, Ric, Vitor Mais e Wagner. Cada um criou a sua história de quatro páginas, com ponto de vista pessoal sobre o tema “dormi na zona e acordei sem cabeça”. Papai Chuck Norris, parceria de Marcelo e Daniela Maura, tem como eixo a violência paterna infligida à filha.

“Se uma publicação independente é lançada, é porque foi feita com recursos do autor ou de um coletivo”, explica Marcelo Dola. Por isso, Faísca é importante por veicular e vender trabalhos. “Precisamos de mais feiras gráficas”, constata, lembrando que a gráfica independente vive momento de expansão.

O editor anuncia para breve o segundo número de 4x4. Aumento de investimento? “Ampliação dos prejuízos”, responde Marcelo Dola, com ironia.

• Seleção democrática

A Faísca Mercado Gráfico foi criada com objetivo de ser evento regular, com data e local definidos. “Nossa proposta é oferecer espaço de circulação a produções de muita qualidade, mas que permanecem pouco conhecidas do público”, afirma Helen Murta, criadora e coordenadora do evento em parceria com Jão, editor e artista gráfico.

A cada edição, a feira reúne cerca de 45 participantes – coletivos, artistas, selos e papelarias –, selecionados a partir de inscrição na internet.

“Esse panorama da produção gráfica mineira, que enfatiza a liberdade de expressão, está aberta ao que é realizado em outras regiões”, conta Helen Murta. O material vem tanto de coletivos recém-criados quanto de veteranos independentes com mais de uma década de atividades.

Por falar em nova geração, a edição de amanhã exibirá RPG. A ideia é divulgar trabalhos de conteúdo tão diverso quanto os formatos, inclusive feministas – abordagem que, segundo a curadora, marca presença desde a primeira edição da feira. “Tudo a preços acessíveis. Os produtos são adquiridos do próprio artista, o que é muito interessante”, conta Helen.
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Arte caligráfica de Pedro Valentim (foto: Reprodução)

Para Jão, o mérito da feira gráfica é oferecer material variado que só pode ser encontrado ali. “Criar mercado para a produção leva a mais produção”, observa. Os eventos mais importantes do país, aponta, são a Feira Plana e Miolo(s), em São Paulo, Pão de Forma (RJ), Dente (DF) e Parada Gráfica (RS). Há também outras iniciativas em Minas Gerais, mas dispersas e sem periodicidade.

Faísca é organizada com carinho, avisa Helen Murta. “Como ainda não conseguimos oferecer mais conforto aos participantes, quem fica sob o sol num sábado, é colocado na sombra no outro. E quem ficou ao fundo, em outro dia é puxado para a frente”, avisa.

FAÍSCA: MERCADO GRÁFICO

Feira de produtos gráficos. Amanhã, das 11h às 17h. BDMG Cultural. Rua Bernardo
Guimarães, 1.600, Lourdes. Entrada franca.

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