A crítica de cinema se adapta e busca encontrar seu tom com as mudanças da internet

Diante das novidades dos meios de comunicação, em que impressões são compartilhadas pelo Facebook, Snapchat, Twitter ou YouTube, a análise sobre a obra cinematográfica se transforma

por Carolina Braga 17/06/2016 13:48

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Seja nas escadarias do Palais do Festival de Cannes, nas badaladas junkets dos lançamentos blockbuster ou na saída de qualquer sessão dedicada a profissionais da crítica de cinema, é comum ver gente deixar a sala de projeção com celulares em punho e olhos nas câmeras. Gravadas ainda no calor da projeção as primeiras impressões vão para o Facebook, circulam no Snapchat, no Instagram, no Twitter além, claro, do já veterano YouTube. A pergunta que se pode fazer diante de uma cena desta é: será que o que fazem é crítica de cinema?

Se o mestre da crítica André Bazin (1918-1958) estivesse vivo não teria dúvidas. “O cuidado do estilo, a formalização do pensamento constitui uma promoção da crítica de cinema como gênero literário”, defendeu. Para quem elaborou esse tipo de definição, qualquer narrativa apressada transmitida por meio de aplicativos on-line estará longe deste ideal.

Contemporâneo de Bazin, o brasileiro Alceu Amoroso Lima (1893-1983) também estremeceria. Para ele, a crítica, “como obra de arte, é a recriação de uma forma alheia de uma obra, em prosa ou verso, criada por outrem. Seu objetivo é a apreciação, a interpretação, a avaliação, a recriação”. Sobre a crítica como um gênero literário, Amoroso ainda acrescenta: “O poeta é proprietário. O crítico é mercenário. Mas um bom mercenário é superior a um mau proprietário, de modo que a querela tradicional entre críticos e criadores não tem razão de ser. Cada um vale, não pela natureza de sua tarefa, que é do mesmo nível como valor em si, mas pela qualidade da sua produção”.

UTILIDADE OU SERVIDÃO? Este ano, o Festival Varilux, dedicado ao cinema francês, incluiu em sua programação uma oficina dedicada à crítica de cinema. É um workshop até sintomático. A crítica não passa incólume às alterações nas lógicas de comunicação a partir do surgimento da internet. Se a rede revira modelos de negócios solidificados no século passado, por que não alterar um gênero? Será “alterar” o verbo apropriado ou melhor usar “transformar”?

Publicações tradicionais como a revista semanal Le Point, o jornal Le Monde e a revista especializada Cahiers du Cinéma (fundada por Bazin) fazem parte do currículo do crítico Jean-Michel Frodon, convidado para conduzir o curso. Hoje, ele se dedica a escrever sobre cinema para o blog Projection Publique e o site Slate.fr.

Tentar definir para que serve uma crítica foi o primeiro passo de Frodon (sim, o nome dele é uma homenagem a Frodo, personagem de J. R. R. Tolkien em O senhor dos anéis). Servir pode ser entendido de duas formas: como uma utilidade ou como servidão. A crítica, seja no passado ou no presente, sempre esteve nesta encruzilhada.

Para Frodon, o formato de texto dedicado a analisar obras de arte, no caso, o cinema, convive historicamente com maus mestres. Na opinião dele, são pelo menos quatro: os comerciantes, os divulgadores, os jornalistas e os professores. O primeiro e o segundo porque tratam arte simplesmente como mercadoria. Os dois últimos porque desvirtuam a “missão” crítica. “Os jornalistas tentam servir-se dos filmes para falar de outras coisas. Fenômenos da sociedade interessam à sociedade. À crítica de cinema, não”, constata Frodon. No caso dos professores, a crítica é utilizada como acumulação de saberes.

A formulação analítica dedicada às obras de arte surgiu no final do século 18 como uma invenção de Denis Diderot. Diante de um quadro ou uma escultura, ele se impunha o desafio de traduzir as impressões em textos. “Ser crítico é confrontar-se com o desafio da escrita”, lembra Jean-Michel Frodon. Mas ele reconhece: os críticos são artistas bizarros. Dependem da obra de outro para fazer a sua.

Para o jornalista francês, o que faz com que um objeto seja uma obra de arte é justamente a incompletude inerente a esta expressão. “O trabalho do crítico não é preencher o mistério, mas abrir ainda mais essa dimensão. Nem todo filme é uma obra de arte. A tarefa do crítico é explicar porque alguns deles traem essa promessa.” Parabéns para quem conseguir fazer isso nos 10 segundos que limitam um snap ou nos 140 caracteres de um tweet.

O desafio posto pelo mundo contemporâneo, marcado pela comunicação em rede, rápida, instantânea e superficial é encontrar outras maneiras para a crítica que vão além da escrita. “Não é o único meio de expressão possível. A internet não está matando, mas abrindo novas possibilidades”, ressalta Frodon.

Imersa na rede, a crítica jornalística de cinema, hoje, habita um ambiente que é hipertextual, multimidiático e participativo. À medida que os textos circulam em conexões de mídias digitais, as características da rede são incorporadas como recursos capazes de interferir no formato. A crítica de cinema presente na internet não é mais apenas um discurso textual, mas envolve práticas, táticas assim como apropriações diversas, seja no âmbito profissional ou amador.

LONGO PRAZO Nunca se teve tanto acesso a filmes como nos dias de hoje. As obras cinematográficas têm uma vida mais longa mas menos chamativa. Os efeitos a médio e longo prazo da crítica se tornaram mais relevantes. As falas se multiplicam em plataformas distintas. Os diálogos ganham corpo. A participação, traduzida na forma de compartilhamento em redes sociais, tais como Facebook, Instagram, Snapchat, YouTube, Twitter e muitas outras, reforça entendimento sobre transformação da crítica como um lugar de interações entre os universos da tecnologia, do sistema de relações sociais e do sistema de representação.

“É formidável porque o cinema existe para que se fale dele”, afirma Frodon. Mas ele alerta: há também na rede o mal-entendido de confundir crítica com tudo que se diz sobre cinema na internet. O momento é de readequação. Não da crítica, que já mostrou ter maleabilidade para se adaptar, mas de quem a faz.

Ao mesmo tempo que a internet impõe a ditadura do imediatismo – que traz a reboque a superficialidade – o mesmo ambiente também rompe temporalidades, tem espaço infinito, permite exercício de linguagens. No ensaio Por uma crítica cinematográfica, André Bazin, defensor da palavra, se propôs distinguir entre crítica oral e crítica escrita. Exercício que, se devidamente ampliado, parece mais que pertinente para os dias de hoje.

Bazin reconheceu que a oralidade é mais eficaz. “Porque mais competente, mais abundante, e mais sincera ou mais maldosa, mas uma não saberia viver sem a outra. A imprensa assegura certa notoriedade  aos julgamentos que os meios competentes produziram sobre um filme. É importante que os debates não ocorram a portas fechadas.” Pois as portas estão mais que escancaradas.

 

Reprodução internet
'O cuidado do estilo, a formalização do pensamento constitui uma promoção da crítica de cinema como gênero literário', defendia o crítico francês André Bazin (foto: Reprodução internet)

EM BUSCA DE UMA GRAMÁTICA 

 

Filho do jornalista e crítico Pierre Billard, Jean-Michel Frodon começou a carreira de crítico em 1981, na revista Le Point, fundada pelo pai. Ocupou o cargo até 1990, quando foi trabalhar no renomado jornal Le Monde. De 2003 a 2009, foi diretor de redação da revista Cahiers du Cinéma, comprada pelo Le Monde. Desde setembro de 2009, mantém o blog Projection Publique. Em 2014, foi nomeado vice-presidente da Comissão de Ajuda aos Cinemas do Mundo. Integra o conselho editorial e atua como colaborador da revista espanhola Caiman, Cuadernos de Cine, entre outras publicações sobre a sétima arte. Ele é, sobretudo, autor e responsável por obras sobre a história do cinema francês, o cinema e a Shoah (Holocausto), o digital, e sobre os cineastas Woody Allen, Hou Hsiao-Hsien, Robert Bresson, Edward Yang, Amos Gitaï, Olivier Assayas e Jia Zhangke, assim como sobre Gilles Deleuze em suas relações com o cinema.

Com todas as transformações que a crítica tem passado na migração para a internet, qual o maior desafio imposto ao crítico?
Existem dois desafios distintos. Um deles é reinventar um tipo de escrita que não inclui, como melhoria, as possibilidades oferecidas pela internet, com os atributos do hipertexto. Estou convencido de que isso é possível – e promissor, embora ainda não esteja ocorrendo. O outro desafio é enfrentado pelos meios de comunicação, especialmente mídias impressas em geral. Eles precisam encontrar um novo modelo econômico que inclua a remuneração da equipe. Internet não vai matar a imprensa, mas vai mudar profundamente. Em outro nível, podemos ver na internet a possibilidade de surgir excelentes críticos de cinema não profissionais. Esta é a boa notícia em toda a história.

Você trabalhou em publicações importantes e tradicionais no ramo da crítica e hoje escreve no blog Projection Publique. Sobre a transição de plataformas, qual a maior vantagem e o maior problema presente na diferença entre os dois universos de publicação?
Para mim, que venho do mundo impresso, há mais continuidade do que mudança na minha atividade como crítico de cinema. Graças à internet, agora tenho uma posição dupla, tanto como integrante de uma equipe de um veículo on-line, o site Slate.fr, e como o autor do que eu prefiro chamar de uma coluna de um blog, chamado Projection Publique. Isso significa que eu gozo, ao mesmo tempo, de uma liberdade total na escolha dos temas, tamanho, tonalidade, etc no PP, e também pertença a uma comunidade de jornalistas, com a Slate. Circulo constantemente entre estas duas posições. Isso é algo que teria sido impossível no universo impresso. Também experimento uma relação muito frutífera com a comunidade dos “meus” leitores (os seguidores do Projection Publique).  O maior problema seria, em geral, a ideia de que os críticos on-line perderiam a ambição do texto, o poder da dimensão literária que a crítica carrega, inclusive estilos modernos e pós-modernos de literatura. Até certo ponto, também há uma certa falta de reconhecimento da escrita on-line comparada com as publicações impressas, mas estou confiante que este cenário vai evoluir.

Festival Varilux
O crítico Jean-Michel Frodon esteve no Brasil para uma oficina sobre crítica de cinema (foto: Festival Varilux)

A partir do momento que a crítica de cinema convencional (escrita e publicada em papel) passa a conviver com outras formas, qual aspecto da atividade do crítico ganha mais relevo com esta transformação?

Em teoria, a resposta deve ser o uso de imagens, sons e links para auxiliar o trabalho crítico. Na realidade,  não vejo isso acontecendo de uma forma criativa (E, obviamente, eu me incluo nesta crítica). Acredito que a resposta é que até agora as mudanças não são grandes.

Acredita no potencial de ferramentas como Snapchat, Instagram e YouTube como ambientes para o desenvolvimento da autêntica crítica de cinema?
Espero que críticos de verdade encontrem novos caminhos para usar essas possibilidades para inventar novas formas de crítica. Assim como Jean-Luc Godard inventou meios utilizando cinema e vídeo para fazer crítica nos anos 1970, ou então como o italiano Enrico Ghezzi, que usou ferramentas da televisão para fazer críticas de alta qualidade. O tempo vai dizer mais sobre as plataformas que menciona. Não posso dizer, mas existem iniciativas interessantes no YouTube.

À medida que a sociedade se mostra cada vez mais escrava do imediato, podemos dizer que a crítica de cinema na internet é mais impressionista (no sentido de ser a primeira impressão do crítico) do que analista?

Não necessariamente. Costumo dizer que a internet oferece uma larga possibilidade de temporalidades diferentes, desde a mais lenta até a mais veloz, com atrasos voluntários, loops e possibilidades de associações. É claro que estou falando sobre crítica de cinema de verdade, não sobre o grande volume de conversa sobre cinema que você consegue encontrar on-line. Mas, por favor, lembre-se que na chamada era de ouro da crítica, também existiram muitos textos ruins e estúpidos sobre os filmes.

A crítica na internet oferece possibilidade de alternar dimensões do trabalho que antes não era possível. Quais são os maiores benefícios desta temporalidade rompida oferecida pelas publicações na internet?

Oferecem visibilidade para muitos novos críticos de cinema, entre os quais, alguns, geralmente muito jovens, são muito talentosos e dedicados.

Se “ser crítico é confrontar-se com o desafio da escrita, querer ser escritor”, em um ambiente multimidiático como da internet, o que é ser crítico?
Exatamente o mesmo, mas expandindo a noção de escrever para outros meios, para além do uso das palavras – embora isso não vá desaparecer, mas vai manter seu valor.

Qual linguagem na internet oferece os elementos mais potenciais para transformação da crítica neste ambiente midiático?

Qualquer linguagem é uma boa ferramenta se ela realiza a promessa da crítica de cinema. Mas eu ficaria bem mais interessado nas possibilidades oferecidas pelos ideogramas chineses, porque são, ao mesmo tempo, escrita e imagem, e como isso poderia ser reapropriado pela crítica. O japoneses nunca fizeram isso porque eles tem muita influência ocidental. Se no futuro a China puder inventar algo nessa direção, seria muito criativo. Mas teríamos que aprender chinês para ler. 

 

A repórter viajou ao Rio de Janeiro a convite do Festival Varilux

 

 

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