Cinco livros discutem a cultura do estupro no Brasil e no mundo

Seleção de obras publicadas no país têm como objetivo desconstruir comportamentos sexistas e ampliar o diálogo sobre esse traço da sociedade brasileira

por Adriana Izel 17/06/2016 12:20

Rodrigo Clemente/EM/D.APress
Jovem participa de manifestação em BH contra a cultura do estupro (foto: Rodrigo Clemente/EM/D.APress)
O abuso sexual coletivo sofrido por uma jovem de 16 anos no Rio de Janeiro e suas repercussões, como a culpabilização da garota nas redes sociais, trouxe à tona um problema antigo na sociedade: a cultura do estupro. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), o termo se refere a naturalização de comportamentos machistas, sexistas e misóginos que normalizam agressões sexuais e outras formas de violência contra a mulher.

Mulheres de diferentes estados e até outros países se manifestaram pelas redes sociais e saíram às ruas para pedir o fim desse tipo de comportamento e prestar apoio a jovem. A partir daí, o termo cultura do estupro – que não é novo – voltou a aparecer. Em vídeo publicado no canal Jornalistas Livres, a escritora e professora de filosofia, Marcia Tiburi, explicou a expressão e seus significados. “Seria o nosso modo de viver, de pensar e de agir em que o estupro foi naturalizado. A sociedade de modo geral não se preocupa com o estupro. Quando passa a comoção, a mesma sociedade desconsidera a cultura do estupro”, afirma.

Para que a discussão sobre a cultura do estupro não se perca, o Pensar apresenta uma seleção de obras culturais que debatem a temática. “É sempre importante colocar na literatura, no cinema, na mídia, uma versão que é a da vítima. De modo geral, temos isso em filmes, livros e novelas de uma forma muito ruim. As obras precisam mostrar a importância de denunciar, dar espaço para as mulheres”, analisa a brasiliense Bianca Cardoso, uma das responsáveis pelo site Blogueiras Feministas.

O livro Má feminista: Ensaios provocativos de uma ativista desastrosa, da escritora norte-americana Roxane Gay, que chegou ao Brasil este mês, trata do tema em artigos. Logo na introdução, Roxane cita diversas atitudes na sociedade atual que servem para naturalizar a cultura do estupro, como um comediante que pede aos fãs que toquem levemente a barriga das mulheres porque ignorar limites pessoais é engraçado; e as músicas que glorificam a degradação das mulheres. A autora dedica um capítulo à temática, A linguagem negligente da violência sexual, em que debate a maneira casual com que se lida com o estupro. “Você pode pensar em uma série dramática de televisão que não incorporou algum tipo de enredo envolvendo estupro? Enquanto o estupro como assunto de entretenimento pode certa vez ter incluído um elemento didático, agora não é mais esse o caso. O estupro é bom para render audiência”, critica.

Na obra, Roxane Gay também lembra de um caso ocorrido nos Estados Unidos, bastante semelhante com o brasileiro. Uma jovem de 11 anos foi estuprada por um 18 homens em Cleveland, no Texas, e teve o ataque divulgado na internet. “Houve uma discussão sobre o fato de a menina vestir-se como se tivesse 20 anos, deixando implícita a possibilidade de que uma mulher possa “pedir por isso” e também de que, alguma forma, é compreensível que 18 homens estuprem uma menina. Vivemos em uma cultura excessivamente permissiva em relação ao estupro. Enquanto, por um lado, há muitas pessoas que o entendem, bem como os danos causados por ele, por outro, vivemos em uma época que exige a expressão cultura do estupro”, analisa Roxane.

EMPATIA O novo livro da escritora americana Leslie Jamison, famosa ensaísta nos Estados Unidos, propõe uma investigação da palavra empatia, por meio de suas próprias experiências, como um aborto e um soco que levou de um desconhecido em Granada, na Nicaraguá. Em Exames de empatia, ela mostra que se colocar no lugar do outro é um jeito de lutar contra a cultura do estupro, por exemplo: “Empatia significa perceber que nenhum trauma tem bordas discretas. Trauma sangra. Também significa a porosidade no testemunho, a vontade de deixar os problemas de um estranho se infiltrar e lentamente desfraldar seu significado”.

Na obra, Leslie não chega a tratar de estupro em si, mas revela muito sobre a cultura que leva a normalização do assédio contra a mulher. “Mais tarde disseram que eu não deveria caminhar à noite, naquela vizinhança ou numa rua vazia, sozinha. Eis o que sozinha realmente significa: sem um homem”, conta no ensaio Morfologia da agressão.

O relato de Leslie no livro se assemelha com o que levou a brasileira Babi Souza a criar o projeto Vamos juntas?. O medo de caminhar sozinha pelas ruas em situações cotidianas fez com que a jovem criasse uma proposta pelas redes sociais para que as mulheres em uma situação como essa olhassem ao redor e se vissem outra mulher fizessem a proposta: Que tal irmos juntas?

A boa repercussão do projeto nas redes sociais — atualmente a página Vamos juntas? tem mais de 360 mil curtidas no Facebook — fez com que o projeto se tornasse um livro, intitulado Vamos juntas? O guia da sororidade para todas. A obra conta a história do movimento abordando temas como sororidade, empoderamento e feminismo por meio de depoimentos.


Mulheres unidas

A atriz britânica Emma Watson, embaixadora da ONU Mulheres, usou as redes sociais para apoiar a movimentação feminina no Brasil contra a cultura do estupro. Em 29 de maio, quatro dias após o assédio da jovem no Rio de Janeiro, ela postou em seu Twitter a hashtag #EstuproNãoÉCulpadaVítima.

Iniciativa em
sala de aula


O escritor e professor de filosofia Matheus Arcaro chamou atenção na semana passada ao ministrar uma aula sobre a cultura do estupro para seus estudantes em Ribeirão Preto à pedido de algumas alunas. “O meu intuito foi tentar desconstruir o machismo que proporciona a cultura do estupro, que fazem a gente achar comum anúncios de cervejas com mulheres seminuas e até um estupro coletivo. Em hipótese alguma se pude culpar a vítima, não há outro culpado a não ser o próprio estuprador”, comenta. Para Arcaro, é importante não silenciar a discussão: “As pessoas se mobilizam e depois esquecem”.

Cinco livros para desconstruir a cultura do estupro

 

Má feminista: Ensaios provocativos de uma ativista desastrosa
• De Roxane Gay.
• Novo Século, 314 páginas.

 

Não sou uma dessas: Uma garota conta tudo o que “aprendeu”
• De Lena Dunham
• Intrínseca, 304 páginas.

 

Exames de empatia: Ensaios
• De Leslie Jamison
• Globo Livros, 296 páginas.

 

Vamos juntas? O guia da sororidade para todas
• De Babi Souza
• Record, 144 páginas.

 

Fale!
• De Laurie Halse Anderson
• Editora Valentina, 288 páginas.

 

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE ARTES E LIVROS