Angela-Lago lança livro de poemas e ilustrações 'O caderno do jardineiro'

Autora homenageia as flores, sua fragilidade e seus espinhos

por Mario Alex Rosa 11/06/2016 06:00

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Angela-Lago/reprodução
Angela-Lago/reprodução (foto: Angela-Lago/reprodução)
É de conhecimento tanto dos adultos quanto das crianças que a artista Angela-Lago tem diversos livros infanto-juvenis publicados por diferentes editoras. É sabido também que muitos deles foram escritos, ilustrados e diagramados por ela. E que outros ela apenas emprestou suas mãos ao ilustrar livros de escritores. Dizer que seu traço tem uma delicadeza é a mesma coisa que dizer que são inconfundíveis pela sua originalidade. Angela-Lago é daquelas escritoras cujo texto e imagem não precisam necessariamente conviver em comunhão. A sua aposta sempre foi criar tensões, subverter a relação estreita entre texto e imagem nos livros infantis.

Tudo isso não é nenhuma novidade, apenas uma constatação, portanto, nada que seus leitores já não conhecessem. Só não sabiam, pelo menos eu, de mais um ponto fundamental: Angela-Lago é poeta. Talvez já fosse uma poeta mas não no sentido daquele que escreve poemas e sim pelo modo que sempre criou seus livros. Anos atrás, a artista, leitora de poesia, traduziu dois poetas de sua admiração: Emily Dickinson e Rainer Maria Rilke.

Vamos dizer então que Angela estava aos poucos tateando a poesia propriamente dita. Era como se a escritora-ilustradora estivesse preparando a poeta-ilustradora. A estreia não poderia ter sido melhor e já com um título preciso: O caderno do jardineiro. Com apenas 26 poemas e 27 ilustrações. Aliás, essas imagens por si só já valeriam um livro à parte devido à beleza e grandeza nos detalhes de cada flor criada pela artista. Assim, pode-se afirmar que Angela-Lago, com apuro e delicadeza, “plantou” flores tão precisas quanto os seus poemas.

O brevíssimo O significado das cores traduz duplamente a percepção que a poeta tem com as cores e as cores das palavras num só amalgama: “amar ello/ ver-mer-yo/a su lado”. Em A palavra homenageia o vocábulo flor, na sua singularidade monossilábica; sozinha em seu ser, brota neste final onde a simplicidade reverbera na própria força da natureza: “(...) ser um ser no ser / tão”.

Embora muitos poemas se refiram ao nome de diversas flores, o livro vai muito além dessas nomenclaturas, portanto, não se restringe ao que elas são em si, mas cria aberturas a partir do modo pela qual a poeta olha para cada uma delas. Em Hortênsia, o jogo sonoro da vogal “o”, que repete em todos os versos do poema, acaba, por assim dizer, a visualizar sonoramente a forma e o sentido nesse que é um dos belos poemas-flores de Angela-Lago: “horto absorto/ e nenhuma flor fortuita/ ouçam ao longe o rondó:/ sou muitas/ para ser uma só”.

Assim como todo jardim tem espinhos, no de Angela os espinhos ferem de maneira reservada, quase que pedindo perdão pela ação humana. Seu gesto é de nobre consciência ao equilibrar aspereza e beleza como no poema A flor sem nome: “tem nome de/ mato/ a flor que maltrato/ passando de carro/ cobrindo de pó// outro nome além/ vou levar também:/ pólen.” Em O vaso, vislumbra-se a passagem do tempo na queda das pétalas sobre a mesa, mas somos agraciados por essa sutil leveza em tentar amenizar o que se vai inexoravelmente: “e há tal graça/ que os olhos amparam o tempo/ outra beleza”. A passagem do tempo pode ser sentida em “Árvore vergada”, mas que ainda pode dar frutos.

Há muitos outros poemas que poderiam ser mostrados aqui, mas o espaço é curto, no entanto, muito menos curta é a grandeza deste livro, cuja poesia já nasceu madura o suficiente para esperarmos outros da poeta. O caderno do jardineiro, sem dúvida, é um dos melhores lançamentos deste ano.

* Professor de literatura brasileira e poeta, autor de Via férrea (Cosac Naify, 2013).



O caderno do jardineiro
. De Angela-Lago
. SM Editora, 64 págs., R$ 40

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