Marcílio França Castro trata do cotidiano sempre provocando estranheza

Confira entrevista sobre o recém-lançado livro de contos "Histórias naturais"

por Pablo Pires 03/06/2016 15:17

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Rodrigo Valente/Divulgação
Marcílio França Castro lança seu novo trabalho em BH no sábado, dia 11 (foto: Rodrigo Valente/Divulgação)

Alex é datilógrafo de um tribunal. Passa a fazer bicos no cinema como dublê de escritores, emprestando a habilidade de suas mãos para cenas em várias máquinas de escrever. Começa com Kerouac, depois Bukowski, Kafka, Cortázar, Mark Twain e Paul Auster. A convivência com autores e seus livros transforma o personagem, mas é também metáfora da relação com a escrita. “Alex incorpora a memória de um mundo em ruínas, o mundo analógico da carta e do papel, das coisas concretas, e é com a força dessa memória que ele interroga a nova era, digital, tecnológica”, explica Marcílio França Castro, referindo-se ao conto Roteiro para duas mãos, que abre seu terceiro livro Histórias naturais.
Como Alex, os contos carregam transformações de toda ordem. São deslocamentos. Ora com olhar afetivo, ora científico, sempre causam mudanças de ponto de vista. Chamou de “realismo oblíquo” esta operação artística, afinal, é papel da literatura enviesar as certezas da ciência e provocar estranhamento. Neste livro, Marcílio França foi craque.

Como é seu processo de criação? Há algum método?
Meu método é o de um revisor obsessivo. Primeiro, vêm as notas, muitas notas. Em caderninhos, papéis avulsos, envelopes, guardanapos, qualquer coisa que esteja à mão. Ultimamente, venho usando também o celular. Em algum momento transcrevo esses rabiscos para o computador, e aí começa a elaboração. Ordeno as notas, faço uma matriz bruta do texto e começo a emendá-lo. Imprimo uma versão, escrevo sobre ela, volto ao computador. Faço quantas versões forem necessárias, até a exaustão.

No livro, há dois grandes contos e praticamente todos os demais são curtos ou bem curtos. Em algum momento você fez opção por escrever textos curtos?
O livro começou com quatro textos curtos, já com o nome de Histórias naturais. Inicialmente, tinha um projeto mais unificado – construir ficções que subvertessem a lógica das coisas, que transpusessem o código de um campo do conhecimento para outro. A entropia como uma lei aplicável às palavras, por exemplo. Ou: um círculo de bicicletas visto como fenômeno meteorológico. Aos poucos essa proposta se expandiu, e vieram os textos longos, mais complexos, mas que mantiveram essa ideia de deslocamento como ponto de partida. O volume publicado se divide em duas partes, livros 1 e 2, e acabou ganhando um tom meio enciclopédico.

Em vários contos, há citações de outras obras literárias, referências a autores, músicas. São parte de seu próprio universo?
De um modo geral, as citações nos meus textos estão a serviço de uma história, de uma trama; respondem a uma formulação imaginativa que constitui o fio ou o objeto da ficção. Elas passam a fazer parte do meu universo a partir do momento em que as incorporo ao texto, e sempre pesquiso muito para isso. Posso dizer, nesse sentido, que Histórias naturais não teria sido possível sem os sistemas de busca da internet (e nem sem os livros da minha biblioteca).

Em vários momentos, você faz referência à palavra como se ela fosse algo material e corpórea. E também aos livros, como objetos que têm autonomia, certa vida própria. A relação com a própria literatura é algo que lhe interessa como tema?
Sim, me agrada aproveitar a literatura ou a ficção como objeto da própria ficção, mas tento fazer isso, sempre que possível, de uma maneira mais aberta, menos hermética. A palavra como objeto, o texto como artefato podem ser dispositivos poderosos para atravessar temas mais sensíveis, por assim dizer, como a memória, a morte, a solidão, o fracasso, o amor. A metaficção é um recurso importante, rico, se você souber usá-lo na dose e no lugar certo.

Sob seu olhar, objetos comuns se revelam de formas insólitas, deslocando a visão comum sobre eles. Como é esse exercício de pequenos deslocamentos? É próprio da arte?
Abrir uma perspectiva inesperada sobre um objeto, apresentar uma história sob um ângulo estranho ou inusitado, sem dúvida me parece que é um procedimento-chave nessas Histórias naturais. O que me interessa é sacar o mundo de sua comodidade, e as coisas de seu conforto, e a partir daí construir narrativas que podem ser muito improváveis, mas que não deixam de ser possíveis. Uma espécie de realismo oblíquo, se posso usar esse termo.

Alguns contos sugerem certa proximidade com as artes plásticas. Há relação entre seus escritos e as outras artes?
Essa não é uma relação premeditada, mas acabou se estabelecendo em alguns textos, especialmente nos muito curtos, aqueles que têm apenas um ou dois parágrafos. Há aí um grande esforço de condensação, um recorte que exige um ponto de observação e uma entrada muito precisos para que a ficção funcione. Talvez esse gesto, que é espacial, que parte de um desejo quase plástico, seja de fato um modo de aproximação com outras formas de arte.

Você adequa sua escrita, em termos estilísticos, ao tema específico de cada conto?
Se você pensa no termo “conto”, verá que ele acaba sendo um pouco limitador, ainda que o gênero abrigue inúmeras variações. O conto costuma evocar a ideia de uma história com começo e fim, com personagens, com um segredo. Ao escrever, porém, me parece melhor deixar a ficção se ajustar ao texto da maneira mais confortável e potente possível, sem definir de antemão qual será a forma final. Dessa abertura pode surgir algo que se assemelhe a um comentário, uma parábola, um relato. Pode surgir um conjunto de notas, uma forma inclassificável. Acho que essa liberdade, aguçada pela rapidez e pela vulnerabilidade com que a palavra escrita circula hoje, está no cerne da literatura contemporânea, e é fundamental no processo de escrita.

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