Discreto e ''de palavra'': Raduan Nassar, o vencedor do Prêmio Camões

Escritor paulista conquistou a principal premiação literária da língua portuguesa em 2016

por Estado de Minas 01/06/2016 08:00

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Paulo Pinto/Fotos Publicas
(foto: Paulo Pinto/Fotos Publicas )
Vencedor do Prêmio Camões 2016, o mais importante da língua portuguesa, o paulista Raduan Nassar jamais se rendeu ao ti-ti-ti do mundo literário – leia-se feiras badaladas, noites de autógrafos e selfies com fãs. Na segunda-feira, quando o nome dele foi anunciado como o 12º brasileiro a ganhar o Camões, o júri deixou claro: fez questão de contemplar um autor “que não cede a pressões do mercado sobre a produtividade” e “cria sua obra literária em total independência aos valores que lhe são antagônicos”. O escritor vai receber 100 mil euros.

À imprensa, Raduan se declarou surpreso, pois se considera dono da obra “de um livro e meio”. Referia-se aos poucos livros que lançou: Lavoura arcaica e Um copo de cólera, escritos nos anos 1970 e adaptados para o cinema, e Menina a caminho, contos dos anos 1960 que vieram a público na década de 1990.

A modéstia de Raduan é inversamente proporcional à potência de sua pequena grande obra, atestou o júri do Prêmio Camões, formado pela ensaísta portuguesa Paula Morão; o poeta português Pedro Mexia; os professores e críticos brasileiros Flora Süssekind e Sérgio Alcides do Amaral; o escritor moçambicano Lourenço do Rosário, reitor da Universidade Politécnica de Maputo; e a ensaísta são-tomense Inocência Mata.

Raduan surpreendeu muita gente, na década de 1980, ao trocar a carreira de intelectual pela agricultura. Mudou-se para uma fazenda no interior de São Paulo, dedicou-se a criar galinhas e coelhos. Em 2013, doou sua propriedade para a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Também repassou terras a ex-funcionários. Atualmente, mora na capital paulista.

Nassar é homem de – e da – palavra. Apoia a reforma agrária, veio a público denunciar o golpe para afastar a presidente Dilma Rousseff e, em abril, publicou, no blog do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), um artigo com o título “Estamos bem arrumados!”. Começa assim: “Ressalvadas exceções de ministros atuais respeitáveis, o STF – Supremo Tribunal Federal – está adormecido, dorminhoco, maculado por sinal pelo seu passado com o regime militar”.

Certa vez, ele explicou, em rara e longa entrevista concedida à publicação Cadernos de Literatura Brasileira, do Instituto Moreira Salles, que seu projeto literário era apenas escrever. “Não ia além disso. Dei conta de repente de que gostava de palavras, de que queria mexer com palavras. Não só com a casca delas, mas com a gema também. Achava que isso bastava”.

Para os críticos, ele inventou um universo literário peculiar, que retrata o peso da tradição cristã, do patriarcado e do trabalho. Seus livros abordam o contexto histórico e como aspectos sociais determinam a constituição das relações afetivas.

Em Cadernos..., o crítico Davi Arrigucci Jr. pergunta a Raduan sobre o papel da crítica literária. “Se digo o que penso, vou ser condenado como escritor ad aeternitatem; se não digo o que penso, eu mesmo vou me condenar ad aeternitatem. Você que é especialista no assunto, desconfio que pela primeira vez você esteja diante de um escorpião verdadeiramente encalacrado. Sugiro pois que você retire a pergunta e eu, do meu lado, recolho meu ferrão engatilhado. Faça isso por este pobre escorpião”, respondeu o mestre.

Em janeiro, foram publicadas as primeiras traduções de Nassar para o inglês –  os livros Lavoura arcaica e Um copo de cólera saíram pela Penguin. Ele tem livros traduzidos na Espanha, França e Alemanha.

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