Descubra espaços culturais pouco conhecidos dos próprios moradores de Belo Horizonte

Cidadãos se surpreendem e se emocionam no contato com obras de arte

por Gustavo Werneck 29/05/2016 08:00

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BETO NOVAES/EM/D.A PRESS
O coreógrafo Gustavo Machado observa a tela A má notícia (1897), do pintor Belmiro de Almeida, exposta no Museu Mineiro: "Sou daqui e nunca vi" (foto: BETO NOVAES/EM/D.A PRESS)

A primeira vez ninguém esquece – ainda mais se for envolta num clima de arte, beleza e muita história. Durante e depois, o encantamento toma conta dos olhos, um arrepio costuma percorrer o corpo e a emoção transborda sem cerimônia. Ao ver pela primeira vez o quadro A má notícia (1897), no Museu Mineiro, em Belo Horizonte, o coreógrafo Gustavo Machado, de 36 anos, morador do Bairro Nova Suíça, na Região Oeste, experimentou esses e outros sentimentos e se disse motivado a fazer novas descobertas na capital. “Sou daqui e nunca vi”, disse Gustavo diante da obra do pintor Belmiro de Almeida (1858-1953) exposta na pinacoteca da instituição estadual que faz parte do Circuito Cultural Praça da Liberdade, na Região Centro-Sul. A exemplo do coreógrafo, outros moradores, por falta de tempo ou oportunidade, ainda desconhecem museus, monumentos, galerias, prédios antigos e demais tesouros que compõem o patrimônio de BH.

Atento a todos os detalhes da tela, que retrata uma mulher em desespero contemplando uma página com moldura preta, Gustavo comentou: “É mais atual do que nunca, pois o que tem de notícia ruim hoje! O artista enfocou a fragilidade humana, a gente sente até um arrepio”. Lentamente, ele observou os cabelos vermelhos da mulher, o corpo solto na cadeira, enfim, toda a composição forte e surpreendente. Perto do quadro, chamou a atenção do coreógrafo uma gravura colorida do pintor, em seu ateliê, no momento de criação.

Nos últimos dias, devido a um trabalho, o coreógrafo fez a sua estreia no Museu Mineiro e se arrependeu pela demora. “Falta estímulo para as pessoas conhecerem os centros de cultura da cidade, o que, na verdade, deveria começar bem cedo, já na escola. Hoje, há muita tecnologia, outros atrativos, programas, cinemas, então deve haver uma campanha firme para formar público, especialmente o jovem”, afirmou, certo de que o belo-horizontino deve conhecer mais os acervos e se acostumar a frequentar os espaços.

 

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Maria Eduarda com o neto Rômulo Pires conhecendo pela primeira vez as carrancas do Rio São Francisco, no Museu de Artes e Ofícios, na Praça da Estação (foto: BETO NOVAES/EM/D.A PRESS)


A primeira vez não tem idade, basta vontade. Cheio de entusiasmo, o engenheiro de minas aposentado Cristiano Barbosa da Silva Filho, de 72, morador do Bairro Santo Antônio, na Região Centro-Sul, também visitou pela primeira vez o Museu Mineiro, na Avenida João Pinheiro. Sobrinho do escultor Alfredo Ceschiatti (1918-1989), ele percorreu a pinacoteca começando pela tela O pastor egípcio (1887), de Honório Esteves (1860-1933). “Temos que valorizar a cultura e dar vazão aos nossos sentimentos. A arte é importante para fazer aflorar a emoção”, assegurou. Depois, visitou os outros ambientes no piso superior, como a Sala das Colunas, que guardam a história de Minas, com destaque para a arte sacra.

PARA TODOS Minas tem 406 museus, entre públicos (federais, estaduais e municipais) e privados, cadastrados no Sistema Estadual de Museus, sendo 57 na RMBH, muitos deles com entrada gratuita e promoções. No estado, administrados pela Superintendência Estadual de Museus, são sete. Mas, em alguns pontos da cidade, a arte “vive” a céu aberto, dando chance ao visitante de mergulhar na história, desfrutar de uma bela paisagem e guardar na memória os bons momentos. Morador do Belvedere, na Região Centro-Sul, o fotógrafo profissional Douglas Martins Silva, de 23, ainda não tinha ido à Igreja de São Francisco de Assis, na Pampulha, ícone modernista componente do conjunto arquitetônico candidato a patrimônio cultural da humanidade, título concedido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco).

Na tarde de ontem, ao fotografar um casal de noivos que se conheceu e namorou muito à beira da Lagoa da Pampulha, Douglas teve, enfim, a chance de conhecer a arquitetura de Oscar Niemeyer (1907-2012), o painel de azulejos dedicado a São Francisco de Assis, de autoria de Cândido Portinari (1903-1962) e os jardins projetados pelo paisagista Burle Marx (1909-1994). “Sempre passei aqui em frente, de ônibus, e nunca tive oportunidade de parar e descer. Pura falta de tempo”, disse o fotógrafo, que resumiu o cenário, enquanto seguia o casal pela orla: “É tudo muito bonito! Merece ser patrimônio da humanidade.” O anúncio do título, será divulgado entre 10 e 20 de julho, em Istambul, na Turquia, pelo Comitê de Patrimônio Mundial da Unesco, e, para animar, já há um parecer positivo do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (Icomos), órgão consultivo que auxilia a instituição da Organização das Nações Unidas (ONU) no julgamento.

 

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O fotógrafo Douglas Martins fez sua primeira visita à Igreja de São Francisco de Assis, na Pampulha: "É tudo muito bonito" (foto: BETO NOVAES/EM/D.A PRESS)


Para mostrar que é de criança que se aprende a valorizar a cultura, alunos do primeiro ano, com média de 6 anos, do Colégio Sonho Meu, de Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, conheciam o cartão-postal da cidade e se maravilhavam. “É a primeira vez da turma aqui e o objetivo não é só visitar, mas ver para aprender a proteger e preservar”, explicou a coordenadora de ensino Janaína Diniz. “Gostei mais das pinturas”, contou, toda sorridente, a estudante Júlia Melo dos Santos Silveira, perto das educadoras Edilene Teixeira, Cíntia Arpini e Larissa Aparecida.

“DAS ANTIGAS” Sempre que retornava da consulta médica com o neto Rômulo Eduardo Pires, de 16, a aposentada Maria Eduarda Chaves, de 76, olhava admirada para o Museu de Artes e Ofícios (MAO), na Praça Rui Barbosa, no Centro, e prometia entrar. Nunca foi possível. O adolescente pedia, mas a pressa de pegar o ônibus impedia o ingresso. Na tarde de terça-feira, finalmente, os dois conheceram o acervo – ferramentas, utensílios e objetos – que conta a história do trabalho no Brasil: são mais de 2,4 mil peças datadas do século 18 ao 20.

Logo depois de passar na roleta, Maria Eduarda ficou longos minutos diante de uma serra e explicou ao menino, de olhos brilhando, “que servia para cortar madeira. Meu marido trabalhou muito com isso”. Natural da zona rural de São Sebastião do Maranhão, na Região do Rio Doce, ela brincou ao se deparar com cada peça histórica: “É tudo lá das antigas. Vi muito isso lá na roça onde morava. O povo fazia muita cachaça, muito queijo”, revelou. Um momento especial ocorreu diante das carrancas do Rio São Francisco, quando Maria Eduarda arregalou os olhos ao saber, pela educadora do museu que a acompanhava, Aline Melo, que peças ficavam nos barcos para espantar os maus espíritos durante as viagem. Depois de visitar o Artes e Ofícios, Maria Eduarda contou que essa era a primeira vez, na vida, em que visitava um museu.


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CAMINHO DE UM QUADRO

Houve um tempo, lá pelos idos do século 19, em que as más notícias eram dadas com tarja preta. Cartas relatando a morte de parentes, comunicados sobre guerras e outras linhas sinistras vinham no papel branco e emoldurados com a marca da tristeza. O quadro muito apropriadamente chamado de A má notícia, datado de 1897 e de autoria do mineiro do Serro, Belmiro de Almeida (1858-1935), que morreu em Paris, traduz bem o clima de consternação, com a mulher em desespero contemplando a página ao chão. Em mais de 100 anos, a tela já passou por vários órgãos públicos e ganhou fama de “agourenta” até chegar sã e salva ao lugar mais adequado, que é o Museu Mineiro. Quem contempla a obra pode ficar tranquilo, pois ela só inspira beleza, assim como as outras 3,5 mil peças, organizadas em 46 coleções, do século 17 ao 21 que compõem o acervo da instituição.

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