Liberdade era bom e Murilo gostava

Relatos do poeta e escritor Sebastião Nunes

27/05/2016 13:30

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Tímido como uma borboleta, passei a frequentar o Suplemento Literário em 1966 (ou 67, não sei bem) e logo de cara me enturmei. Como parte do pessoal vinha da faculdade de direito da UFMG, não tive problema em “penetrar”, mas como encarar Murilo, o escritor já famoso, com sua careca, seu farto bigode e seus óculos pesados?

Logo notei que o “chefe” mantinha duas posturas, sem nenhuma ambiguidade: liberdade absoluta para aqueles de quem gostava; os outros nem passavam da porta.

Incrível como, já velho para nós (tinha mais ou menos o dobro de nossa idade média), nos tratava como iguais – ou como crianças, talvez. Então, era deitar e rolar,e foi o que fizemos, enquanto durou a magia e o ex-mágico aguentou.

Lembro-me de que entreguei meu primeiro poema experimental para ele tremendo de medo. Uma coisa estranha, pretensiosa e ambígua chamada “de como erec talhou a cabeça aa sua irmã”, escrito mais ou menos desse jeito, em caixa baixa e dois “as” por crase, numa imitação do português medieval, que eu pesquisava e adorava.

Murilo encarou a garatuja, deu um leve sorriso, e disse: “Tá bom, Tião”. Saí dali sem saber se seria publicado ou não e só no sábado de manhã, que era quando a gente pegava o SL na banca, vi que lá estava ele, meu primeiro poema publicado, o texto em letraset misturado com as ilustrações, típico monstrengo experimental.

Usando essa liberdade absoluta, inventei uma editora, um escritor e um romance policial, O ovo atrás da porta, publicando uma resenha que ninguém se preocupou em certificar. Ou ninguém se importou com isso. Pelo menos um dos enturmados sabia da minha tramoia: Sérgio Sant’Anna, futuro parceiro de peças jamais encenadas.

O pior aconteceu quando publiquei o segundo poema experimental, com um baita erro de português. Comecei a suar frio assim que bati o olho no poema impresso e continuei suando frio até que encarei Murilo alguns dias depois – e ele nem aí. Continuei suando frio diante dos amigos escritores, jovens e exigentes –e eles nem aí. Mas continuei suando frio até que, ao imprimir por minha conta o primeiro trabalho, Última carta da América, e dedicá-lo a Murilo, corrigi o erro. Desde então, passei a usar, na folha de rosto de todos os livros de poemas, a frase preventiva: “Os erros de português não são erros de português”. Coisa de anarquista purista.

Desajeitado, levei um exemplar para Murilo no Lua Nova e mastiguei uma frase que ninguém entendeu. “ Tá bom, Tião”, disse Murilo ao receber o exemplar. E eu não sabia se ele estava agradecendo ou apenas suportando mais uma homenagem de um de seus indisciplinados aprendizes.

*Poeta, escritor, artista gráfico e editor. Autor de Antologia mamaluca 1 e 2, Poesia inédita ,O suicídio do ator, entre outros.

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