Aventura compartilhada

Escritor e diretor do Suplemento Literário de Minas Gerais, Jaime Prado Gouvêa compartilha suas memórias sobre Murilo Rubião

27/05/2016 12:53

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Eugenio Pacelli/EM
(foto: Eugenio Pacelli/EM)
*Por Jaime Prado Gouvêa
 
Conheci Murilo Rubião no segundo semestre de 1969 quando, apadrinhado por meu amigo Humberto Werneck, fui convocado para substituir o poeta João Paulo Gonçalves como revisor do Suplemento Literário de Minas Gerais. Trazia comigo, como credenciais quase juvenis,umavitória no concurso da Revista Literária da UFMG e um prêmio no Concurso de Contos do Paraná, além de alguns contos que, no ano seguinte, comporiam meu primeiro livro. Ficava na mesa de fundo da redação dividindo as tarefas de revisão com o poeta Adão Ventura e com ampla visão para os novos colegas, os redatores Carlos Roberto Pellegrino, o próprio Humberto, Márcio Sampaio, o diagramador Lucas Raposo, e Rui Mourão, que se sentava ao lado de Murilo na mesa da chefia. O aspecto compenetrado do secretário Murilo – assim era então nomeado o diretor do jornal –, sempre de terno e gravata e às voltas com as cartas que trocava com colaboradores, foi dissolvido no convívio que se desenrolou e mostrou o amigo fiel e protetor que sempre foi para aquela meninada que ele dirigia e que acabaria por formar uma nova geração de escritores.

A sala do Suplemento, logo na entrada da Imprensa Oficial, era um ponto de encontro frequentado por novos e velhos talentos: poetas, contistas, romancistas, ilustradores, músicos, gente do teatro, um pessoal que vinha trazer seus trabalhos para publicar ou apenas papear no final da tarde. Murilo, de sua mesa, acompanhava tudo sem interferir. Jamais ovi elogiar contos ou poemas de qualquer novo candidato a escritor, mas sabíamos que, quando decidia publicar seu trabalho, era porque o aprovava, por mais incipiente que fosse. Não passava a mão na cabeça de ninguém, mas, ao perceber um mínimo de talento no pretendente às letras, ele o admitia como mais um dos nossos. Sabia que conviver e trocar informações e experiências ali dentro, não só entre os novos, mas com escritores do nível dele, como Ildeu Brandão, Emílio Moura, Libério Neves, Bueno de Rivera, Affonso Ávila e tantos outros notáveis que sempre nos visitavam, fazia parte do aprendizado. Toda a minha geração deve isso a ele: um espaço onde plantar nossa futura carreira.

Murilo, que em 1966 criou o Suplemento, recriou-o em 1983, quando foi nomeado diretor da Imprensa Oficial por Tancredo Neves. Oito anos antes, oprimido por pressões externas, internas e pela censura daqueles tempos, o então secretário Wander Piroli se demitiu do cargo e o pessoal, que até então fazia o jornal, resolveu se afastar. Murilo nunca se conformou e, quando enfim teve o poderdereverter as coisas,e mesmo com grande parte de seu pessoal já tendo partido para outros caminhos, convocou para a retomada alguns dos companheiros que por aqui ficaram como Duílio Gomes, Manoel Lobato, Lucas Raposo, eu e o então poeta Sebastião Nunes, que passou a ser o programador gráfico. O Suplemento,quese tornara um jornal quase provinciano, recuperou seu dinamismo e funcionou bem até que, por coincidência, uma doença séria afastou Murilo definitivamente. Ali, na Imprensa Oficial,ojornal nunca mais foio mesmo, definhando até ser cedido, no final de 1994, à Secretaria de Estado da Cultura. Mas essa é uma outra história.
 
O que importa é que a obstinação de Murilo foi a alma que fez o Suplemento sobreviver durante este meio século, ainda que sob ataques da ditadura e do reacionarismo intelectual e provinciano que sempre o desejou para si. Hoje, vendo aqui e ali surgirem novos talentos para nossa literatura, sinto que seu espírito criativo permanece em nós, e que o caminho que ele orientou nos auxiliou a vencer as dificuldades da carreira literária, como devem concordar os colegas de geração Sérgio Sant’Anna, Luiz Vilela, Sebastião Nunes, Márcio Sampaio, Humberto Werneck e tantos outros que jamais largaram essa cachaça, sem falar no pessoal que veio depois ou oque está apenas começando.
 
*Escritor, diretor do Suplemento Literário de Minas Gerais, autor de Ficha de vitrola outros contos, O altar das montanhas de Minas, entre outros.


VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE ARTES E LIVROS