A calva cordialidade

Depoimento de Márcio Sampaio sobre a convivência com Murilo Rubião

27/05/2016 12:22

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Evandro Santiago/EM
(foto: Evandro Santiago/EM)
*por Márcio Sampaio

 

Conheci o Murilo em 1965, apresentado pelo pintor Mário Silésio, que havia feito a capa do livro Os dragões, publicado naquele ano pela Imprensa Oficial, e que iria reavivar o interesse pela literatura dele, praticamente desconhecida dos leitores. Trabalhava no Diário de Minas como crítico de arte e responsável porumapágina de entrevistas e matérias culturais. Publiquei uma matéria sobre o Murilo e seu livro, que teve boa repercussão e o Murilo gostou muito.


Passamos a nos ver com frequência na na Gruta Metrópole, onde se reuniam intelectuais, artistas e boêmios. Embora com uma boa diferença de idade, tornamo-nos muito amigos. E daí apresentei-o a vários artistas e escritores mais jovens, ele passou a ser uma espécie de “guru” de um grupo maior, que se reunia em um bar no Malleta – o Lua Nova, que se tornaria a nossa "Catedral”, diferente do Lucas e outros bares da região frequentados por intelectuais e artistas.


Em 1966, trabalhava em Ouro Preto dirigindo uma galeria e mantendo uma “loja de poesia”, especializada em poemas-objetos e manuscritos ilustrados, com um gosto neoconcreto. Murilo Rubião frequentava muito Ouro Preto, não faltando aos almoços e jornadas de longas conversas, especialmente em casa dos pintores Nello Nuno e Annamélia, que já moravam ali havia alguns anos. Assim estávamos sempre em contato direto. Quando Murilo foi incumbido pelo governador Israel Pinheiro de criar uma publicação cultural que desse marca para seu governo democrático, ele me chamou para ajudá-lo. Ele tinha confiança de que eu poderia dar contribuição significativa ao projeto. Participei das reuniões e ficou acertado que eu seria responsável pela área de artes plásticas, contato com artistas e ilustradores, e reponsável por uma coluna específica. Uma boa missão, uma vez que o Suplemento seria semanal.


No primeiro número, que saiu em princípios de setembro, publiquei matéria assinada sobre artes plásticas, um pequeno verbete sobre Álvaro Apocalypse, que ilustrava a primeira página, e uma reportagem/entrevista com o compositor belgo-belo-horizontino Arthur Bosmans – assinada com pseudônimo. Houve euforia e almoço de congraçamento, como era costume entre nossa turma, pra comemorar o lançamento do SL.

 

Na redação, Murilo mantinha uma certa formalidade de chefe, mas era de grande afabilidade para com todos nós, não dispensando porém seu jeito irônico, com tiradas fortes e certeiras, quando era necessário e oportuno. Sempre firme, mantinha o tom de modernidade da publicação, exigente comaqualidade dos textos a serem publicados. Murilo praticava o critério de qualidade. Na comissão de redação estava um acadêmico, o Aires da Mata Machado, e a redação ainda era frequentada pelo grande Emilio Moura, o Bueno de Rivera, além dos jovens que formaram a hoje histórica “Geração Suplemento”, vários deles incorporados, profissionalmente, no quadro de redação do SL.


No Lua Nova, éramos um grupo eclético, bem humorado, com artistas e escritores de grande talento e porte intelectual. E todos encantados com a literatura desse até então desconhecido grande escritor e grandíssima figura humana. Para nós, Murilo era um personagem perfeitamente enquadrável no ambiente de seus contos. Ele misturava uma certa maneira que era de simplicidade, um pouco de timidez, cordialidade, cavalheirismo, e uma boa dose de ironia.


Ouvíamos com atenção e encantamento a narração de um conto que estava escrevendo. Contava detalhes do que já estava escrito, criava outros acontecimentos para a história e, ao fim, esgotava-se, e o que seria escrito esvaía-se na sua oralidade compassada, um pouco gaga, que o fazia coçar a calvície. Sua inteligência e cultura, somadas à experiência internacional, criaram uma figura emblemática de intelectual mineiro. Mas o considerávamos “um dos nossos”, não exibia ar de superioridade, nem quando alçava postos culturalmente estratégicos no governo.


Em 1991, fui incumbido por Berenice Menagalle, então secretária municipal de Cultura, para organizar um grande evento inaugural do Projeto Memória Viva, criado para homenagear artistas e escritores vivos. Durante quase um ano, eu e Gabriela Rangel (artista, filha de Nello Nuno e afilhada do Murilo), passamos a frequentar a casa dele esmiuçando sua bem-organizada biblioteca e o arquivo, para montar o que seria uma grande exposição biográfica e criativa.


Tivemos que adiar uma vez a abertura da exposição, porque ele, que já se achava doente, não estava em condições de dar presença. Mas mantinha o entusiasmo pelo projeto. Consegui fazer com que ele fosse fotografado pelo Waldir Simões Lau, em todos os ambientes pontuais de sua vida em Belo Horizonte, e a última jornada de registro fotográfico foi no Parque Municipal. Foi uma longa série de fotos ótimas e ele estava realmente revivendo antigos tempos. Consegui que tirasse o paletó, num dia ensolarado. Só não consegui que ele subisse em um dos cavalinhos do carrossel. Aí era demais pra ele, mas o fotografamos junto do carrossel. Foi o último momento de descontração, de conversa amena, de grandes recordações.


Três dias antes da inauguração da mostra no Palácio das Artes, ele nos deixou.

 

*Escritor, artista, crítico de arte e curador



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